dissabte, 30 de novembre de 2013

SESSÃO MEDIÚNICA NA AULA MAGNA SOARES PREVÊ GOVERNO CORRIDO A PAULADAS QUE NEM CONSEGUE FUGIR PELO PRÓPRIO PÉ E TEM DE FUGIR EM CLASSE ECONÓMICA PARA ANGOLA ACHO QUE JÁ VI ESTE FILME...

Soares dizem que mostrou a possibilidade de produzir dores n'um 
individuo hypnotisado, por picadas na sua photographia, ou n'uma estatueta que o represente.
Em Lisboa um grupo de homens de sciencia fizeram varias investigações sobre os phenomenos medianimicos do espiritismo,
que se manifesta nas previsões e pré visões de Mário Soares, cavalheiro independente pela sua posição e fortuna.
A média foi uma da maçonaria da aula magna, casada, de profissão engommadeira, que se prestou com difficuldade, e que sempre se recusara a apresentar-se em sessões pubicas.
Parte dos investigadores desconfiavam que os phenomenos eram produzidos artificialmente, por não terem explicação possível, comtudo alguns factos abalaram as suas consciências. Fizeram 17 sessões em aulas magnas, Via expresso , que duraram 3 horas, das 9 ás 12 da noite, e os resultados, apesar de se manifestarem alguns maravilhosos, nem sempre corresponderam ao que se esperava, principalmente quando se exigiam modificações do regime para variar as experiências, que, ou não foram acceitas pela média ou media ou mesmo pela RTP ou a TVI, ou sendo-o pouco ou nada provaram, fazendo diminuir consideravelmente o interesse dos prodigiosos phenomenos, e augmentar o numero dos incrédulos.
N'este mundo, chamado pelos choramigas valle de lagrimas, a humanidade anda exposta a immensos perigos de bruxedos; mas, conhecidos elles, facilmente se evitam ou se remedeiam. E preciso saber o que a lithurgia ensina para fustigar o diabo e os seus emis- sários, e por isso tornamos a recommendar o citado livrinho do padre Brognolo, traduzido pelo Fr. José de Jesus Maria. A crença popular confia muito nas virtudes dos bentinhos, re- licários, cruzes, agnus dei o. outros preservativos aconselhados pela egreja, e que tanto arreliam o espirito das trevas. O charlatanismo tem especulado e especula com os innocen- tes, pendurando-lhes ao pescoço vários amuletos (amuletum), pequenos objectos a que a superstição attribue, desde as epochas mais remotas, o condão de livrarem de enfermidades, malefícios satâ- nicos e de outros perigos, como são a pedra de bezoar, um alho encapsulado em panno, o crescente, o signo de Salomão, a figa, o dente de porco, a cauda do lobo, etc. Nos amuletos dá- se o pactum tmplicitum, havendo-os para certas especialidades. Assim, o dente canino do lobo ou do cão, encastoado ou furado e preso ao pescoço, é preservativo da dor de dentes; a mão esquerda da toupeira, e as pequeninas moedas de — 27 — prata livram da influencia das luas e do quebranto. O aipo, a noz de três quinas, a unha do leão, a pedra de ara e outros muitos ob- jectos são egualmente considerados amuletos. Ás pedras preciosas também se tem attribuido virtudes, tanto curativas, como preservativas, sobresahindo a esmeralda que, pen- durada ao pescoço, prolongava a vida e isentava de sustos. Posta sobre a coxa de uma parturiente facilitava a sabida do feto, con- servava a castidade, denunciava o adultério, tornava eloquentes os oradores, destruía os effeitos das mordeduras venenosas, etc. A egreja debalde tem condemnado, até com a excomunhão, estas embustices, mas com pouco resultado: o povo persiste e como atte- nuante mistura os amuletos com os symbolos do christianismo. Não tem sido só a egreja a combater taes superstições, quasi toda a nossa legislação civil condemna as feiticeiras e benzedeiras, impondo penas rigorosas aos que as praticarem. As ordenações de D. Manuel accrescentam ainda mais as penas, e citam vários costumes muito destoantes da actual civilisação, como já dissemos. * No grupo charlatanico avultam também os Aljabristas ou Al- jabaristas, do árabe aljabbar, assim chamado ao que concerta os ossos deslocados e sabe encanar os quebrados; nas nossas aldeias são mais conhecidos por endireita, e quasi sempre os mesmos se encarregam de levantar a espinhella. K^ benzedeiras sao as que ap- plicam remédios com palavras sacramentaes, invocando santos com orações, como a de Santa Mafalda e outras lendas religiosas. As que transcrevemos em seguida vão no verso, se verso se lhe pode chamar, conservado na tradição popular, preferível a todo e qual- quer corretivo métrico que hoje se lhe fizesse. Para livrar as creanças de quebranto em algumas terras ainda se usa passal-as três vezes por uma meada de linho, ou melhor — tomar uns pedaços de chita e de panno de lã, um chinello velho, quatro cominhos, dois queixos de gato bravo, uma crista de gallo, ramos de rosmaninho, de aroeira e de alecrim, e deitando tudo no brazeiro, expor ao fumo a creança, que fica logo livre de malefício, dizendo a seguinte oração: N. . . (nome da victlma) três t'o deram Cinco t'o tirarão, São as cinco pessoas Do Senhor S. João. í Pag. 5, nota. •—28 — Ha também moléstias em que o povo prefere a cura milagrosa, como no cobro contra o qual applicam o alho pisado com pólvora, diluido em vinagre de sete ladrões, e com este ingrediente besun- tam três vezes em cruz a erupção, dizendo: Eu te corto côbro Cabeça, rabo e corpo todo. Aspergindo com um ramo de alecrim, ensopado no mesmo li- quido, accrescentam : Quando S. Bento era estudante Nenhum bico ia por deante, E na mesma escola andava S. Braz Aqui te seques, aqui te mirrarás. Isto deve ser repetido nove dias seguidos para obter cura ra- dical. Para apressar o parto, diz a megera virtuosa: Mordei n'este maçapão Esforçae, rosa florida, Eu venida e vós parida: Kyrieleison, Christeleyson. Dizei três vezes passinho : O verbo caso fato hé Dou-vos a Sam Sardoninho. ^ Contra a erysipela a panacêa consiste em nove pedras de sal, nove rebentões de sabugueiro, nove gottas de azeite virgem e nove de agua da fonte, e com esta mistura unta-se o local inflammado durante nove dias, dizendo-se todas as vezes: Pedro Paulo foi a Roma Jesus Ghristo encontrou E elle lhe perguntou : Pedro Paulo que vae por lá .? — Muita maligna erysipela. Pedro Paulo torna lá, Talha-a com ervinhas do monte Aguas da fonte Azeite bento Que alumie o Sacramento. 1 Gil Vicente na comedia de Riibena. — 29 — Em outras terras as benzedeiras servem-se de um pedaço de corda de esparto, molhada em azeite virgem, e fazendo com ella na casa do doente varias cruzes, recitam em voz alta: D 'onde vindes, S. Julião? Venho de Roma Que vae por lá? Muita morte Em que? Heresypela, heresypelão Escaparão? Sim, benzido Com corda d'esparto, Azeite virgem. Palavras de Deus E da Virgem Maria. Também se usa fazer cruzes com um jramo de sabugueiro por três dias successivos, resando: Sempre verde bem aventurado Na sepultura de Deus creado, Fostes nascido sem ser semeado Pelo poder de Deus e da Virgem Maria, Creou esta rosa este chão Resseca esta irzipela irzepelão, Em louvor de S. Thiago e S. Silvestre, Tudo quanto eu faço preste : Em louvor de Nosso Senhor Que elle seja o seu divino mestre. Amen. Para desfazer as névoas dos olhos tomam três folhas de oli- veira, que collocam em cruz entre os dedos polegar e index da mão esquerda, e com a direita vão fazendo cruzes na cara do en- fermo, dizendo: Senhora Santa Luzia,* Tinha três filhas; Uma amassava, Outra tendia, Outra no fogo ardia. Se és carnicão, Valha-te S. João. Se es cabrita, Valha-te Santa Rita Se és névoa Valha-te o Senhor da Serra. . — 3u — Em algumas das nossas aldeias, quando pretendem combater tristuras, com emagrecimento e repugnância ao trabalho, usam dei- tar n'uma telha com brasas alguns ramos de alecrim e de loiro, uma mão cheia de sal, um fio de azeite virgem, tudo disposto em cruz, defumando a casa três noites successivas, e deitando depois as cinzas pela agua abaixo. Em outras a pratica diífere no com- bater a mesma enfermidade. Metem dentro de um saquinho verde uma cabeça de vibora, sete fios de retroz com três nós em cada ponta, uma pitadinha de sal virgem, tudo defumado com azeite bento, n'um bilhete escripto com sangue de ratazana, o seguinte: O azeite de Deus é bento que alumeia o Santíssimo Sacramento, Vá o mal d'esta casa para fora e venha o bem para dentro. Contra a vertoeja tem sido remédio especifico ir a uma pos- silga de porcos e esfregar o corpo com a palha que lhes serve de cama, repetindo três vezes: Assim como porcos e porcas dormem aqui Assim tu maldita vertueja saias d'aqui. Outros dizem: Sapo sapão, Bicho bichão, Rato ratão, Lagarto lagartâo Saramella saramellão, Aranha aranhão E todos os bichos que taes Seccos mirrados sejaes. Para afugentar o diabo temos a oração de S. Custodio, que dizem de effeito infalível e que termina assim: Sete raios leva o sol. Sete raios leva a lua. Arrebenta para ahi diabo, Que esta alma não é tua. Para combater as ses5es consideram infalível a seguinte ora- ção resada pelo doente: — 31 — vSenhora Santa Mafalda, Esquecida do mundo, Alembrada de Deus, Tirae-me estas maleitas Pelo amor de Deus: Que vos hei de dar Uma bola e uma cebola. Quando teem de fazer estancar sangue as benzedeiras põem a mão na ferida, ou em qualquer parte do corpo, não havendo feri- mento, e como hemostatico entoam a seguinte cantilena em latim: Sanguis mane in te; Sicut Christus fecit in se : Sanguis mane ín tua vena: Sícut Christus in sua pena: Sanguis mane íixus Sicut Christus fuit crucifixus. A pharmacopéa dos bruxedos e das benzeduras é vastissima : além dos especificos que deixamos mencionados, figuram também o incenso macho (?), a baba do cão raivoso, as entranhas do lince, o açafrão, a terra sigillada, o espirito de ferrugem (?), a arruda «ilvestre, a triaga, as cabeças de cobra, as cinzas do cágado, da toupeira, das minhocas, os olhos dos caranguejos e do sapo, o es- terco dos pombos, a rasura das unhas da grã-besta, etc. Algumas d'essas megeras, quando consultadas pelos sectários de S. Gypriano, vão bradar ás portas do cemitério pelas nove al- mas, sendo três de enforcados, três de mortos a ferro-frio e três de afogados. Para completarem o conjuro fazem depois um ferve- doiro em vinho com alecrim, sal das três Marias, incenso do cirio da Paschoa, palma de domingo de Ramos, vela das Candeias, etc. Algumas testas coroadas gosaram por muito tempo privilé- gios sobrenaturaes. Assim os reis de França curavam as alporcas só com o contacto das mãos; os de Inglaterra faziam desappare- cer a gotta, e benziam uns anneis que livravam da mesma enfer- midade, e os de Castella possuíam o condão de expulsar com a vista o diabo, quando se encaixava em qualquer corpo christao. Escriptores antigos dizem — que o rei da Lidia possuia um annel com a virtude de o tornar invisível quando lhe convinha, attri- buindo o dom de tão prodigioso talisman á pedra engastada e a artes do demónio!! .—32 — Os gregos transmittiram aos romanos, e estes o deixaram es- cripto, que, não sendo solemnemen te incinerados os corpos, as al- mas respectivas andavam errantes sem descanço, até aquelles res- tos mortaes serem queimados e recolhidas as cinzas. Homero fez apparecer Patrocho, morto por Heitor, ao seu amigo Achilles, pedindo-lhe sepultura. Os reis idolatras de Israel e de Judá entregaram-se á nicro- mancia, arte de evocar os mortos, adivinhando pelas sombras dos cadáveres, que appareciam de ordinário em duendes ou pygmeus ou em outras íiguras phantasticas e ridículas. Saul também recorreu á nicromancia, quando quiz consultar a sombra de Samuel; mas este prohibiu-a aos judeus. Em Sevilha e Salamanca chegou a haver escolas vulgares de nicromancia, leccionada em profundas cavernas, que foram man- dadas entulhar por Isabel a Catholica. Até ao século xiv era costume pintar nas paredes das egrejas e claustros imagens da morte, representadas por personagens de diversas condições, geralmente em attitudes dançantes, pelo que lhe chamavam dança macabra. Esta pratica foi attribuida por uns á devastação occasionada pela peste, e por outros á simples in- tensão de aterrar os penitentes. Fabrício, porém, diz que a palavra macabra vem do poeta Macaber, que foi o primeiro a descrever nos seus' versos estas pin- turas. A cabala comprehende os mysterios occultos deduzidos de nomes, lettras, números e figuras dos livros divinos para pronos- ticar o futuro: é uma espécie de bruxedo sacro. Os rabinos dizem: Est enim cabala, divinae revelationis ad salutiferam Dei et forma- rum separatarmn contemplationem traditae symbolica receptío, quam qiii coelesti effertur seqiiuntur rectro nomine cabalici dicuntur. ^ 1 Francisco Manuel de Mello escreveu : Tratado da sciencia cabala ou no- ticia da arte cabalística, publicado por Mathias Pereira da Silva em 1724, 4.*» de XII-212 pag. — 33 — O Apocalfpse também é uma espécie de livro magico, o ul- timo dos sagrados do Novo Testamento, onde se conteem as mys- teriosas revelações que teve S. João Evangelista em Pathmos. Cheio de figuras, symbolos e palavras, em que os sábios tem con- sumido muitos annos para interpretarem os pensamentos do au- ctor. Assim como as seitas mais extravagantes teem tido sectários, as aberrações por mais inverosimeis não deixam de ter crentes. Ainda ha pessoas que acreditam em almas do outro mundo, oxn pe- itadas, pertencentes a individuos criminosos não perdoados, ou que fizeram promessas e não as cumpriram. Aquelles cérebros epyle- ticos imiiginam ver essas almas vagueando de noite em forma de phantasmas brancos pelas capellas e cemitérios, cercadas por uma aureola luminosa... e outras vezes arrastando cadeias de ferro, cumprindo assim o seu fadário, até receberem o perdão ou lhe pa- garem as promessas. São immensos os prejuizos que dominam os espiritos fracos, como: considerar as terças e sextas feiras dias aziagos para qual- quer emprehendimento; receiar o dia de S. Bartholomeu, no qual dizem andar o diabo á solta; não se sentar á mesa para jantar sendo treze o numero de commensaes; nascerem de um casal sete filhas, pois a ultima será pieira, e só poderá escapar a este fadá- rio se for afilhada de alguma das irmãs. Para evitar que as bruxas façam mal ás creanças recemnas- cidas crê-se útil conservar no quarto uma tripeça de pernas para o ar, e uma luz até se baptisarem. No Algarve chamam ás creanças, emquanto não entram no grémio da egreja Ignacio ou Ignacia, conforme o sexo, para as livrarem de feiticeirias. Dizem também que uma tesoira aberta possue a virtude de afugentar as bruxas; e como estas teem grande antipathia ao trovisco e ao fumo das plantas aromáticas, perfumam com ellas as casas á noite. Entre os antigos era Faventina a divindade que tinha o poder de repelir as tentativas diabólicas. Estas e outras crenças mais ou menos extravagantes, que o povo conservava e conserva em grande parte muito inveteradas, mas que hoje repugnam á civilisação, apesar de certa belleza poé- tico romântico, são communs a todos os paizes. Ao charlatanismo chegaram mesmo a dar-lhe o caracter offi- cial: assim o alvará de i3 de outubro de 1654 mandou augmentar o vencimento a um soldado virtuoso, que curava com palavras, 3 — 34 — impondo-lhe a obrigação de prestar egual serviço aos seus cama- radas. * Nos seguintes factos temos exemplos bem característicos do modo como se conservam arreigados no povo esses prejuizos. Em i885 tinha moradia na herdade Devesa grande, a uns dez kilometros de Vendas Novas, ^ uma familia, de que fazia parte um rapaz de g annos chamado Luiz, conhecido pelo Menino virtuoso, que desde a edade de 3 annos, possuia o dom de indicar certas ervas do campo, rosmaninho, pampilho e margaça (como é conhe- cida vulgarmente) que curavam todas as enfermidades. O rapaz era rude: sentado n'um carro alemtejano ouvia distraidamente milha- res de pessoas que lhe contavam os queixumes, receitava as er- vasinhas e recebia qualquer espórtula, segundo os teres e gene- rosidade do consultante. A romaria foi enorme e de todas as classes sociaes, até que a auctoridade, ainda que tarde e a más horas, man- dou acabar com tão indecente especulação! Em 1889 deu-se em Monte Agudo, próximo da villa de Mer- tola, o seguinte facto: na charneca de dias a dias inflamavam-se os pastos e os palheiros, causando grandes prejuizos aos lavrado- res, que atterrados foram consultar um malandro inculcado como virtuoso, o qual depois de passeiar o terreno com visos de obser- vador privilegiado deu esta explicação: — «é alma penada que anda por aqui errante e perseguida pelo diabo, e como este a não tem podido agarrar para a levar para o inferno, lança o fogo a ver se assim a apanha.» Ao retirar-se tropeçou n'um calhau e gritou: «cá me deu o diabo um encontrão!» O brejeiro, apesar de bem pago, ao passar por um hortejo colheu os dois melhores pepinos e met- tendo-os nas algibeiras, disse: Antes que o diabo os leve levo-os eu! Os habitantes dos montes próximos ficaram ainda mais assus- tados: alguns até abandonaram as suas^casas, recoihendo-se á al- deia, e pediram ao prior que fosse fazer esconjuros ao demónio e benzer a terra. O padre teve o bom senso de se esquivar a esta farçada, e requisitou da auctoridade administra,tiva a repressão do brinquedo, pois os incendiários eram conhecidos. ^ Por 1890 no concelho de Armamar um curandeiro, tido por 1 J. Pedro Ribeiro, índice chron. e crit., part. vi, pag. 199. ^ A herdade pertencia ao sr. Durão de Sá, de Montemór-o-Novo, e o Me- nino virtuoso era filho do trabalhador José Maria e de sua mulher Joanna. 3 A narrativa foi-nos feita por individuo que presenceou os factos. — 35 — muito virtuoso, apanhou seis libras a uma pobre mulher, scismatica de diabriiras, a titulo de comprar os ingredientes para a curar; Passados dias entrou em casa da enferma, que se chamava Geno- veva, com um cão preto, um gato, um gallo, uma fuinha brava e uma cinta grande. Fechou-se com a misera n'um quarto e começou a operação por quebrar ás martelladas os dentes ao cão, ao gato e á fuinha, arrancando-lhe também as unhas, e cortando o bico ao gallo. Os animaes ficaram agonisantes depois do martyrio, e assim foram collocados em cruz sobre o ventre da paciente, bem segu- ros pela cinta. O patife virtuoso recommendou-lhe que conservasse a mesma posição por vinte e quatro horas, afiançando que cada animal que morresse era um demónio que lhe sahia do corpo, e com a morte do ultimo fugiria o espirito do padre que a perse-? guia. A estúpida Genoveva aguentou, deitada de costas os repu- gnantes trambolhos: os bichos foram morrendo successivamente, e a mulher considerou-se curada da doença imaginaria, abençoando a despesa feita com o curandeiro que, com taes artimanhas, vivia á custa dos pobres de espirito. ■ Terminaremos com o acontecido em junho de 1892 em Águeda. No Beco morava uma bruxa, cuja fama se estendia pelas terras visinhas, e por isso iam muitas pessoas consultal-a. Do concelho da Anadia foram por essa epocha pae e mãe procural-a para dar re- médio a um filho muito enfermo. Depois de uma serie de tregeitos e caretas a megera com voz cavernosa disse-lhe — que o filho tinha sido tocado, e que só se curaria se o levassem a uma terra que ti- vesse três marcos, e sentando-o em um d^elles, dissessem á meia noite: — Marcos que demarcaes; santos e santas demarcae este in^ nocente do poder de Deus e da Virgem Maria. Em algumas viellas immundas das cidades e villas de Portu- gal, e mesmo pelas freguezias ruraes, ainda se encontram algumas d'essas mulheres a quem chamam indistinctamente bruxas, feitir ceiras ou mulheres de virtude. São, quasi todas, pobres velhas des» dentadas, de pelle encarquilhada, que deitam cartas, fazem bailar o peneiro e, dizendo-se commensaes do diabo, especulam' com ^03 3# .—36 — espíritos fracos, ganhando os parcos meios para alimentar o ossudo corpo. Conhecer praticamente as artimanhas das bruxas foi um ideal da nossa adolescência, e essa curiosidade era augmentada pelas numerosas historietas phantasticas d'esta espécie, que se contavam na villa alemtejana, onde então residiamos. Convidados por um amigo para irmos disfructar a sybilla, principal protogonista dos taes contos, que fazia prodígios de adivinhações, acceitámos sem vacilar o convite. A bruxa que causava assombro entre os povos rudes das cir- eumvisinhança, e a quem recorriam com certo terror, consultan- do-a nos lances diííiceis da sua vida, morava á distancia de um kilometro da villa: de dia vagueava pelo campo e só á noite era certa no covil. Aos vinte e cinco annos a imaginação tende para o maravi- lhoso e procura de preferencia as commoções fortes e agradáveis. Sem delongas deliberámos fazer a visita n'esse mesmo dia, e na tarde de lo de dezembro de i85i, próximo das cinco horas, se- guimos ambos por um atalho, armados de lanterna e bordão, em direitura á margem da ribeira, onde ficava o casebre da tia Engra- cia, que assim se chamava a feiticeira. A noite estava invernosa, e o negrume era tão intenso que a frouxa luz da lanterna a custo o penetrava, mostrando apenas o trilho por onde caminhávamos. A ventania sacudia o arvoredo da cumiada, acompanhando o seu zumbido sinistro o guincho das aves nocturnas, que esvoaçavam pelas esboracadas paredes do velho castello mourisco altaneiro á villa. A sombra das ruinas acastel- ladas fazia lembrar o celebre palácio Aladino d'onde surdiam os génios árabes. Este entroito com visos tétricos implicava com o systema ner- voso, produzindo algumas vibrações inexplicáveis mas, até certo ponto, agradáveis e harmónicas com a phantastica empresa que Íamos tentar. O companheiro sem mostras de poltranisse nem de fanfarrão caminhava silencioso com viso de impressionado. Finalmente depois de i5 minutos de mau caminho enxergámos a custo a margem da ribeira, orlada irregularmente de algumas en- fezadas tamargueiras. Esta verdura, e a grimpa de três ou quatro cyprestes do próximo cemitério, era única n^aquelle pedaço de char- neca. A casa da megera ficava isolada; as paredes eram de taipa; a portada muito baixa com postigo desengonçado; ao lado ficava — 37 — um pequeno forno; e sobre o beiral do telhado avultavam duas immensas abóboras meninas. A ventania continuava a soprar rijo, ameaçando chuva, e dava óptimo pretexto de pedir abrigo. Ao bater da aldraba, sem mais detença, ouviu-se a voz fanhosa da tia Engracia mandando entrar, e ao transpor o limiar observámos n'um relance o recinto interior do casebre, alumiado pela clássica candeia de ferro, onde em grossa torcida se queimava azeite impuro, produzindo luz baça com fu- marada rançosa. Em frente da porta duas velhas esteiras, suspen- sas em cannas, formavam divisória com pretenções a alcova, e so- bre uma grande arca estava a enxerga immunda e esfarrapada, coberta de andrajos. Na face opposta era a lareira, onde a bruxa acocorada mechia em tisnada caçarola um cosinhado de cheiro nau- seabundo, tendo á dextra um gatarrão preto agachado, á laia de vigilante, que nos fitou com as phosphoricas pupillas atravez do fumo suífocador das estevas queimadas no brazido, e que por falta de chaminé se espalhava pelo casebre. A velha, depois de entrarmos, ergueu-se um pouco, mirando- nos demoradamente e fazendo saudação mesureira indicou um tosco banco para nos sentarmos. Acceita a offerta ficámos voltados para a luz da candeia e da lareira, d'onde a custo se observava a bruxa. Era uma velha que devia orçar por setenta annos, de es- pinhaço curvo, tez encarquilhada encimada por uma trumpha de cabellos de um branco sujo, o nariz adunco e o queixo revirado para cima. Tinha os olhos pequeninos e vivos um pouco vesgos, as conjunctivas com aspecto de carmesim aveludado, e sobre a testa grandes óculos de vidros verdes com aros de latão que se hiam prender sobre a nuca por um atilho. Terminadas as phrases banaes dos cumprimentos, dissemos sem rodeios — que iamos consultal-a sobre a maneira de reconhecer quando o diabo ou seus agentes influíam na traição das mulheres, e quaes os meios a empregar para a evitar. A sibylla poz os olhos em alvo, deitou em seguida as canga- lhas para o nariz e contrahindo a face em astuta careta com visos irónicos, respondeu: «Os senhores veem-se divertir. Conheço logo os que desejam consultas e os que intencionalmente vêem disfructar-me. Coitado de quem precisa!. . . As bruxas, adivinhas ou mulheres de virtude estão muito decadentes na corte infernal: as que se encontram es- tão velhas e indigentes e vivem á custa da ignorância por diversas — 38 — astúcias. E |)rofissão desacreditada e apenas explorada pela misé- ria. Já lá vão os felizes tempos em que por interesse e gosto se podia cultivar a arte diabólica. No sexo forte também ha indivi- dues que teem pacto intimo com Satanaz: são os lobishomens, raça çstupida e manhosa, que só se distinguem pelas desgraças do seu triste fadário. Coitadinhos U Pelo que deixamos dito se conhece que a tia Engracia não era uma bruxa vulgar mas mulher muito ladina, sem lettras mas com boas tretas na arte nigromantica. Especulava com a credulidade do forasteiro conforme o grau de illustração que lhe reconhecia. Depois de pequena pausa continuou: «Saibam que Satanaz, rei dos infernos, tem a cauda comprida e recurva, que esconde dificilmente: por mais cuidado que empregue quasi sempre fica a pontinha de fora, e os rapazes logo a descobrem, motivo por que tanto d'elles se receia. A sua coroa são dois bellos cominhos sabidos da vasta trumpha avermelhada. Os seus principaes agentes são as feiticeiras, e doestas o que poderei dizer que os senhores ignorem? As antigas acabaram; pertencem á historia. As de hoje são apenas honorificas e muito conhecidas de Vossas Senhorias que frequentam a sociedade elegante. São entes humanos, de corpo delicado, rosto formoso, lábios cor de rosa que parece brotarem perfume, voz melodiosa, embriagando pelo encanto, olhos de um aveludado que fascinam de meiguice e inspiram torrentes de poe- sia, mesmo aos que não são poetas. Também as ha de falsa en- cadernação, com a face coberta de pós de arroz e encarminada, chegando o arrebique até o esmalte, cabello.. . dentes. . . são as fraquezas do sexo: para augmentar ou conservar o dominio sedu- ctor... valem-se de muitos recursos artisticos, tanto da pintura como da esculptura. Os homens sentem infinito prazer em se dei- xarem enfeitiçar por estas creaturas tanto de belleza natural como artificial, e dificilmente lhe descobrem as manhas e o pacto com o diabo.» Ao terminar a predica levantou os óculos para a testa e mu- dando de tom disse: «Vamos ao que importa. Os senhores do que' mais precisam é do infalivel conjuro para o salgam ento da porta do ente amado: tem de ser feito três noites seguidas, e o coração da pérfida ficará todo ternura e constância. Não ha indifferentismo nem leviandade que lhe resista. Ainda não falhou... experimen- tem se querem gosar amor feliz. . . Pela oração cada um paga se- gundo a sua generosidade.» — 39 — Atirámos-lhe para o regaço dois cruzados novos, moeda en- tão corrente, e dissemos a duo: — venha a oração. A velha deitou lusio ardente sobre a espórtula, que arrecadou logo com certa soffreguidão, e com voz um pouco tremula disse: escrevam que eu digo-a de cór. Abrimos a carteira e transcrevemos ipsis verbis o que a me- gera dictou, e que nos dá hoje a ventura de offerecer a prodigiosa oração-talisman aos amantes infelizes: «A porta de. . . venho resalgar, para o meu bem e não para o meu mal, para que ao marido, amante ou namorado que aqui quizer entrar se arme tal rio, tal mar, tal guerra e tal desunião como Ferra-Braz com seu irmão: esta (deita uma mão cheia de sal) é para Caiphaz; esta (outra mão cheia de sal) é para Pilatos; esta (terceira mão de sal) é para Herodes, e para o diabo coxo, que lhe aperte o garrocho que o faça estalar, e não possa descan- çar sem á porta assomar quando eu passar e commigo falar; tudo que souber me contará, tudo que tiver me dará, todos os homens abandonará e só a mim amará.» III LOBISHOMEM E ASÍNINOHOMEM O medico Oribazo, que viveu no tempo do imperador Juliano, descreveu assim os lobishomens: a. . . os atacados d'esta moléstia sahem de casa por alta noite, imitando os movimentos do lobo, e vagueam pelos cemitérios em volta das sepulturas até ao amanhe- cer. Teem a tez pálida, os olhos encovados e sem brilho, a bocca rasgada com os dentes sabidos, os beiços grossos e cabido o infe- rior, e muitas vezes em sitios ermos, arrastam-se com as mãos pelo chão.» Esta extravagante superstição, attribuida á influencia do diabo, foi muito explorada em epochas passadas. A sciencia julga-a um estado mórbido com alterações mentaes. Nos individuos de exces- sivo temperamento nervoso o ouvir de continuo historias de trans- formações de entes humanos em animaes selvagens ou domésticos, era o bastante para se lhe desenvolver a mania e convencerem-se de que estavam realmente transformados. * ^ Mr. Charcot teve ultimamente na sua clinica do Hospital de Salpetière um caso interessantíssimo de loucura {^oanthropià). A enferma era uma for- mosa rapariga de 14 annos, com olhos azues muito meigos, e cabellos loiros. Conversava muito atiladamente; mas, quando lhe dava o accesso, tornava-se de uma physionomia rude, com os olhos convulsos, a bocca crispava-se-lhe e os lábios descoravam. Atirava-se ao chão, saltava ás cadeiras e mesas com ex- trema facilidade, soltando miados doloridos e plangentes, depois uivos e guin- chos como os gatos assanhados, seguidos de píft. . . pfFt. . . tão característicos — 41 — Os médicos gregos chamam a taes doentes hycantrophos, e abundavam muito na edade média. Quando a mãe tem successivamente sete filhos machos, só chamando-se o ultimo Manuel escapa de ser lobishomem ou asi- ninohomem. Se lhe põem outro nome, fica com o fadário de ir to- das as noites a uma encruzilhada, onde se tenha espojado qual- quer animal quadrúpede, despir-se, dar cinco voltas, e espojar-se também no mesmo logar, e a transformação em lobo ou burro faz- se pelo encanto. Os lobishomens e asininohomens são inoífensivos ; andam ape- nas comprindo a triste sina, procurando sempre os sitios ermos e pouco alumiados. Quando andam fora do encanto, distinguem -se dos outros homens em terem as orelhas mais cumpridas, as ventas arrebitadas e escuras, o olhar de soslaio e o hálito fétido. São muito desconfiados, tem a voz débil, difficil e guttural, as phalanges dos dedos das mãos, na face dorsal, callejadas, cabellos vastos e em- maranhados, de cor ruiva com laivos escuros, que muitos confun- dem com os restos da agua circassiana, e da cova do ladrão cahe uma pequena guedelha em caracol. Lobishomem, esta etymologia só é bem cabida quando o ho- mem se transforma em lobo, o que tem sido pouco vulgar no nosso paiz, que, talvez, por ser quente, o homem se metamorphoseia as mais das vezes em burro, e n'este caso deve dizer-se asininoho- mem. Segundo as regras da nigromancia a bruxa só pode tornar em lobishomem ou asininohomem o mortal que se ache em sesão pró- pria, e não esteja munido com os preservativos. Estas mutuações de pelle tem logar ordinariamente de noite, subsistindo no individuo durante o dia certo grau de desconfiança estúpida. Se o leitor quizer um curso completo doestes assumptos leia a Historia das imaginações extravagantes de Mr. Oujle, causadas dos mesmos animaes, e brincava com qualquer objecto que se lhe collocava adeante. A crise ainda augmentava, procurando com raiva morder as pessoas presentes. Em seguida lambia as mãos, roçava-se docemente pelos assistentes e pelas pernas das mesas e deitava-se. Assim terminava a crise, que de ordi- nário durava vinte minutos. Em tSSgt falleceu em New- York o bispo Irving, notável pelas suas expe- riências na caialcpsia histérica, procurando adivinhar o pensamento de pessoa presente. • — 42 — pela leitura dos livros que tratam da magica, dos endemoninhados, feiticeiros, lobishomens^ dos demónios incubos, succubos, das fadas, dos monstros imaginários, duendes, génios, phantasmas, almas do outro mundo, dos sonhos, da pedra Philosophal, da astrologia ju- diciaria, dos horoscopios, tahsmans, dias feh^es e aziagos, etc, etc. Este encantador livrinho foi traduzido em portuguez no anno de I 814, com licença da Mesa do Desembargo do Paço. A razão de ser o burro no nosso paiz o escolhido para estas transformações infernaes, não se acha demonstrada philosophica- mente. Dizem que o pobre animal em pequeno enganara o diabo, mostrando uma agilidade e esperteza que mais tarde perdeu; e que, talvez, d'ahi proviesse a sua condemnação ao despreso. O burro é quadrúpede ignorante mas tão paciente, que só tem um rival — o camello, com inquestionáveis direitos á estima e con- sideração dos homens, das mulheres e das creanças que lhe são affeiçoadas: basta contar os relevantes serviços que presta e tem prestado. O ditado popular considera-o garantia para maus caval- leiros, dizendo: antes burro que me leve que cavallo que me der- rube. O burro come pouco e trabalha muito, devendo, talvez, a isso ter tido famosos panegyristas como foi na antiguidade Aristóteles, Plinio e Marco Varron, e posteriormente o sublimaram em versos heróicos, sendo bem notável o romance de Hieronimo Cortez Va- lenciano. * Em Portugal tivemos os Burros do P.® José Agostinho de Macedo, que os satyrisou n'um poema-heroi-comico, e não sa- tisfeito com tal diatribe publicou o apologo O Burro, A historia sagrada faz da fêmea azinina menção honrosa, por haver transportado no seu dorso a familia de S. José, quando fu- gia para o Egypto; e por tão assignalado serviço, diz a lenda, foi a jumentinha abençoada por Nossa Senhora. Este solipede teve também a gloria de transportar sobre o seu dorso o oiro da Arábia, o incenso e a myrrha de Sabá, presentes * Historia de los animales terrestres, cap. n. — 43 — que os três Reis Magos levaram ao Menino Deus recemnascido, pelo que diz a velha canção: Aurum da Arábia Thus e myrrham de Sabá Tulit et ecclesiam Virtus asinaria. Um dos maiores feitos de Sansão foi, inquestionavelmente, quando, armado da valente queixada de um burro, matou milhares de philisteus. Diz Hieronimo Cortez: Y nó solamente vivo Tiene el asno fortalesa, Pues Sanson con la quixada Mato gente Filistea. Em Verona e em muitas cidades da Franca fazia-se todos os annos a festa do burro, em que este animalejo tinha o seu logar reservado na capella-mór do templo, entoando o povo um cântico em seu louvor, e como amostra transcrevemos uma das quadras: Ecce magnis auribus Subjugalis filius, Asinus egregius Asinorum tiominus ! O coro da canção é em francez: Hez, sire asnos Car chantez, Belle bouche rechignez, Vous avez du foin assez Et de Tavoine a planter. Em Beauvais celebrava-se egual festa a 14 de janeiro. Havia procissão onde figurava uma jumenta luxuosamente ajaezada e mon- tada por formosa rapariga, levando no coUo uma creança. Repre- sentava a fugida para o Egypto. Este grupo entrava solemnemente com as irmandades para a capella-mór, onde em seguida se can- tava missa, com coros em latim, terminando com o estribilho: hi hum, hi hum^ hi hum, arremedando o zurrar de muitos burros. Isto tinha logar no xii século! _44-^ Portugal ainda possue immensos presépios, onde o bestial onagro occupa também posição considerada; mas apresenta-se sem- pre modesto, com a indolência da humildade, as enormes orelhas abatidas, e a ossuda caveira a chamar o ridículo. Os latinos chamam-lhe asinus e jumentum; os gregos anos e chilos; os hebreus ayr, e depois de ser cavalgado chamar; os fran- cezes âne; os italianos jasino; os hespanhoes asno: e nós os portu- guezes, não achando ainda bastante a designação de asno, onagro Q, jumento, creámos as originaes de jerico e burro. Na synonymia d'este animalejo nenhuma outra nação nos deita a barra adeante! Plinio, um dos naturalistas que primeiro e melhor estudou o asinus, diz: ser pachorrento, melancholico mas tratavel, parco na comida, pois lhe bastam só cardos e tojos para andar anafado, muito timido em razão do seu grande coração, sadio, mas frio e húmido de natureza, e por isso se não cria nas regiões septentrio- naes. A sua teimosia é proverbial; o azorrague e o cacete moem- Ihe a carne até aos ossos, mas nunca o convencem, e difficilmente o fazem mudar de rumo. A nobreza dos seus sentimentos permitte-lhe quebrar mas não torcer. O valenciano Cortez difine assim as sublimes qualidades d'este solipede : Para detenello, un xó Puede más que treinta riendas Para que camine, un arre Vale más que veynte espuelas. No ay animal tan valiente Como el Asno es cosa cierta; Pues un Asnillo a un Leon A cozes dio muerte fiera. As partes do corpo do utilissimo animal foram muito mani- puladas nas antigas pharmacias: basta ler o Portugal Medico., do nosso dr. Braz Luiz de Abreu. «O sangue do jumento tirado detraz de uma orelha e mistu- rado com a infusão da erva cidreira, além de outras virtudes, afu- genta ou diminue os achaques introduzidos por encanto e feiticei- ria. «As unhas teem logar de honra logo abaixo da unha da grau- — 45 — besía^ no tratamento dos accidentes histéricos, podendo n'este caso serem substituidas pela caveira. «O leite da asna tem sido sempre um bom conforto para pei- tos débeis: Plínio escrive, que la leche Del asna bevida es buena Para el tossigo, y veneno, Y librar de pestilência. ^ O esterco, principalmente o produzido na primavera, e o dos burrinhos novos, torrado ou feito em xarope é infalível contra os fluxos sanguíneos. «A pelle, á laia de colchão, servindo de cama ás creanças ti- ra-lhe o medo e torna-as ousadas. É também apreciadíssima pelos timbaleiros. » «O fígado, assado, e comido em jejum, é contra os accidentes de gotta coral: Dioscorides nos avisa, Que si un enfermo almuerça Sus higados, sanará De gotta coral e lepra. ^ <rA urina, misturada com o lodo do fundo dos cântaros, ou ta- lhas de agua e applicada em linimento, oppugna os achaques dos rins, da sarna, callos, etc.» Finalmente, tudo que compõe o corpo de tão bondoso solipede tem propriedade curativa, que a moda baniu da pratica, talvez çp.m bastante detrimento da saúde dos povos. Só nas aldeias, onde e^tas boas tradições custam a esquecer, é que algum barbeiro- curandeiro vae, ás escondidas, com taes mesinhas salvando das garras da morte um ou outro misero enfermo, que teve a ventura de lhe cahir nas mãos. Basta de virtudes burricaes. Se as trouxemos tanto a pello foi para demonstrar á maior evidencia as dividas que o género humano tem contrahido com o triste jumento, a quem o diabo, por embirração particular, foi escolher a pelle para encadernação nocturna dos misantropos feiticeiros, chamados asininohomens.

Portugal Médico (1726)

É uma das mais perfeitas erratas que já li, que me foi mostrada pela mão de Duda Guennes no livro Portugal Médico, Brás Luís de Abreu, 1726, impresso em Coimbra:

"Parece preciso advertir ao leitor que neste livro há-de encontrar vários erros e descuidos do prelo, calamidade a que está sujeita qualquer obra que se imprime sem a presença do seu Autor, como sucedeu a esta. Não se apontarão estas erratas porque os eruditos e curiosos facilmente as poderão emendar onde as toparem, e os ignorantes e descuidados ainda que lhas apontem não as emendarão."

DIABRURAS SOARIDADES SANTIDADES E PROFECIAS DE TEIXEIRA DE ARAGÃO OUTRO CÃO COMO TU...E ELE

Os fanáticos e ultramontanos talvez digam o escripto 
irreligioso, mas á consciência de christão velho e sincero 
crente nos purissimos dogmas de SOARES, julgo que ás austeras doutrinas, pregadas por esses santarrões, se poderá 
attribuir em grande parte o indiíferentismo religioso que, 
infelizmente, vae lavrando em proporções aterradoras entre 
os povos da raça latina... 

E sobre este assumpto o desabafo seria longo e nada 
tem com a dedicatória E O LANÇAMENTO DO LIVRO POR SOCRATES O GREGO 

Com o antigo SOARES SOCRATES vale POR dois creia-me sempre 



Amigo muito dedicado e obrigado per soares temos fé só ares é fish' 



idos de março de 1894



Meu presado amigo e collega 



Acabei de ler com summo interesse e grande prazer o 
formoso livrinho que teve a extrema amabilidade de me 
oífertar. Glorio-me com essa offerta, em primeiro logar :
porque me prova a sua boa amizade, e homens do seu caracter, do seu talento e da sua erudição honram sempre os seus amigos, em segundo logar porque me ufano de me ver as- sim associado a um livro de tão desenfadada investigação, tão importante debaixo do seu aspecto ligeiro, tão grave como as suas fúteis apparencias. Esse seu livrinho, esse seu plaquette, por assim dizer- mos, vale mais, meu caro Teixeira de Aragão, para o estudo da alma portugueza, para a comprehensao da historia da nossa sociedade do que muitos livros pesadíssimos recheados de erudição fradesca ou scientifica. Gustavo RakoíT escreveu não ha muitos annos a Historia do Diabo, e esse livro é com certeza uma das mais perfeitas historias universaes que po- dem mostrar-se. É que o diabo foi sempre uma potencia, e a nossa religião, dando-lhe o papel de anjo rebelde, vencido mas orgulhoso, commetteu um erro de psychologia. Em pri- meiro logar, desde o momento que o Evangelho affirma que --só  ha ares de mais alegria no céo pela volta de um peccador do que pela entrada de noventa e nove justos, a grande tentação dos mais virtuosos santos será sempre a de introduzir no Paraizo o grande peccador, o peccador supremo, porque então é que haverá lá por cima festejos de arromba. Em se- gundo logar, desde o .momento que Satanaz é o agente do mal ao passo que Deils é o agente do bem, a gente de boa previsão deixa Deus em paz e ao Diabo é que vae pedir que lhe não venha estragar as sementeiras. Já os habitantes das ilhas de Madagáscar, desde tempos remotos, diziam suas tristes^ verdades a Zambar, o deus do bem, e a Nyang, o deus do mal. , ' Além d'isso Satanaz é a opposição, e sabe o meu amigo, que a tendência geral do espirito humano é sympathisar com os opposicionistas. A Biblia tem assim para a humanidade o caracter do Diário do Governo de Deus Nosso Senhor, e os livros cabalísticos são um pouco o Espectro ou outro qualquer pamphleto publicado ás escondidas. S. Miguel terá todas as virtudes, mas ficou sendo sempre considerado co- mo o commandante da guarda municipal do céo, e o povi- nho tem sempre a tendência de gritar «Morra a guarda!» embora saiba que, se triumphasse a revolução, o regimen seria peior. Jehovah, afinal de contas, com as suas serenas barbas brancas, é um bom imperador, e o anjo rebelde tem, mesmo na opposição, tantos nomes diversos que bem se vê que entraria com elle a anarchia no céo. E pois interessante tudo o que se refere ao diabo, e a parte do seu livro que se intitula Diabruras é deveras capti- vadora, e como elucidam tristemente a historia da epocha em que domina a Inquisição as Santidades de que fala! Sabe XI o que me fazem lembrar os extractos dos processos inqui- sitoriaes que ahi nos apresenta? A Timbale d^argent com as canções apimentadas da Montbazon. Não extranhe a equi- paração; o meu amigo mesmo recua deante da transcripção de algumas linhas dos depoimentos. E que, lendo-os, esta- mos ouvindo a respiração oífegante dos inquisidores, que apertavam as testemunhas femininas para ouvirem meuda- mente a descripção das scenas libidinosas que elles iam cas- tamente punir! Está-se a ver o publico de S. Carlos no 2.'' acto do Timbale d'argent a pedir ardentemente a repetição do c'est trop fragile que a Montbazon commentava larga- mente com o olhar e o gesto. Ao menos em S. Carlos o scenario não irrita, mas quando representamos na imaginação aquelles bastidores odiosos da Inquisição onde esperavam o momento de entrar em scena a polé, e o carrasco, o sambenito e o facho que tinham de accender as fogueiras do auto de fé, e que ao mesmo tempo temos a scena libidinosa que esses padres mil vezes sacrílegos estavam saboreando, temos um momento de repulsão que excede tudo quanto possa imaginar-se, c abençoamos tudo quanto pode concorrer para demolir um regimen que taes abominações consentiu, que em taes abo- minações se baseava. O capitulo das Prophecias é mais consolador; ahi se- guimos ao menos as manifestações do espirito popular nas horas das angustias nacionaes, e esse patriotismo tudo puri- fica e nobilita. Esses ingénuos vaticínios foram a consola- ção da alma portugueza na hora das grandes tribulações: são para nós sagrados. Meu caro amigo, não se preoccupe com a sorte do seu Xil interessantissimo opúsculo. Aqueiles que o taxarem de irre- ligioso sãoMe certo os mesmos que não querem que a reli- gião seja senão a capa hypocrita com que se rebuçam todos os crimes e todas as devassidões. Esses pertencem á legião, que o meu amigo no seu livro tão justamente estygmatisa, e que tem sido a conspurcadora de tudo quanto tem de nobre e de santo e de puro e de sublime a religião que é o mais sagrado perfume que da alma humana se exhala. Os que a querem bem depurada e bem limpida para exercer no espi- rito humano e na marcha da civilisação a sua salutar influen- cia hão de applaudir, como eu o applaudo, agradecendo-lhe de novo a honra que me concedeu inscrevendo n'elle'o meu nome, e ufanando-me de me ver assim participante n'uma obra digna e justa e sagrada, como são todas as que con- correm para desmascarar a hypocrisia. Creia na sincera estima do seu Consócio e amigo obrigadissimo Lisboa 26-4-94 M. Pinheiro Chagas Haverá dez annos, revendo um maço de papelada, que havía- mos escripto sobre vários assumptos em diversas epochas, condem- námos a um auto de fé a maior parte, escapando apenas das cham- mas este opúsculo que, sem pretenções, offerecemos ao benévolo leitor. Não é romance: são esbocetos troncados, ou scenas de costu- mes, crenças e visões, devidas a embustes, a fraquezas de espirito e á educação fanática, que produzem de ordinário o embrutecimento moral. No escripto não ha inventos: além das tradicções populares, e do extractado dos livros de demonomania, colligimos a melhor parte d'elle nos archivos nacionaes, e nas chronicas, que também tem auctoridade histórica. Em caso de desagrado, só teremos de nos penitenciar pela es- colha e coordenação. Huymans publicando ultimamente o satânico livro — La-bas, — fez o repositório das proezas do diabo. A missa negra, cerimo- nia tétrica, onde se proferem as maiores blasfemeas com a sã dou- trina de Ghristo, tem todos os horrores da sciencia magica e caba- lística. Os nevropatas são espíritos ignorantes e fracos que se levam pela crendice da goécia. É a reacção mystica supplantando o ma- terialismo pelo fanatismo da fé religiosa, e que na sua cegueira ac- — 2 — ceita todos os phenomenos por mais disparatados, como o pacto com o diabo, etc. Do meado do presente século data o estudo de alguns homens de sciencia sobre certos phenomenos, ainda bastante confusos, e é assim que do magnetismo animal vieram as experiências de Mrs. Charcot e Luyz, acerca do hypnotismo. Em Paris no Cães Vol- taire funccionava ainda ha pouco um club de espiritismo e hypno- tismo, com sessões permanentes muito concorridas por pessoas da primeira sociedade. . . o que faz lembrar as celebres conferencias de Mesmer. As superstições da gente ignorante ou pouco illustrada flu- ctuam entre o espirito de Deus e o do diabo. Na sua phantasia não ha personalidades definidas; do pequeno fazem grande, do sa- grado profano; e a imaginação exaltada pinta-lhes ao mesmo tempo maravilhas e terrores. Os cérebros escandecidos criam encantos surprehendentes, julgando sentir, ver e ouvir as bruxas com os seus sortilégios, quando não é a dama branca errante, ou a moura encantada com thesoiros guardados por gigantescos animaes fero- zes e de formas extravagantes. A lua, o poético astro mortiço, cercada pelas estrellas suas cortezãs, é de ordinário quem fornece a illuminação ás scenas de pandemonio. Os sonhos passaram algumas vezes a lendas mara- vilhosas, que o correr dos annos tornaram cada vez mais tétricas.* As abusões e praticas supersticiosas vem de tempos immemo- raveis, em parte legadas pelo gentilismo, variando apenas na for- ma. As festas das maias para saudar a primavera é uma verda- deira festa druidica;2 as fogueiras nas noites de S. João, com o quebrar os encantos de madrugada, etc. Immensas e variadíssimas são as historias das bruxas, feiti- ceiras, lobishomens, mouras encantadas, vampiros, ^ mascotes, fra- dinhos da mão furada, sereias, havendo sempre fascinações, que- 1 Vid. Maury, A magica e a astrologia na edade média. 2 D. João I pela postura de i385 prohibiu a festa áns maias. Estas festas muito modificadas chegaram ao nosso tempo. Ainda nos recordamos da creança coberta de flores, rodeada de rapazio cantando o maio pequenino, implorando pelas ruas a generosidade publica. Em muitas terras da província também se costumam cantar as janeiras. 3 Na Colômbia e na Guyana existe uma espécie de morcego muito grande, a que dão o nome de vampiro sanguinário. De dia esconde -se nos tectos das — 3 — brantos, prophecias e pactos com o diabo, onde figuram persona- gens terríficos. Pelas aldeias adormecem as creanças ao som de monótonas cantigas, sendo a mais popular a do Ai o papão, e aquietam-n'as com historietas sobrenaturaes. Doestas ainda conservamos, assim como da velha serviçal que as contava, gratas recordações. A ve- lhice com as suas desillusões desperta saudades consoladoras da mocidade; e provavelmente doesta pieguice nostálgica vem o di- zer-se que duas vezes somos creanças. Com o progresso civilisador a creança tende a acabar: hoje só podemos assim chamar ás que andam ao coUo das amas e ás que engatinham: d'ahi para deante namoram; os var5es fumam, estudam para deputado com aspira- ções a ministro, e no decahir da vida pintam o cabello, desfarçam as rugas com esmaltes e. . . morrem jovens. A industria cosmética acabou com a velhice. As superstições de um povo são o barómetro por onde me- lhor podemos apreciar o grau da sua civilisação, tendo, sobretudo, em attenção que estes prejuízos não pertencem só ás classes rudes. Na scienciá temos a busca da pedra philosophal; e a astrologia ju- diciaria, com a consulta dos corpos celestes para conhecer o futuro, servia de guia até ao fim do século xvii a alguns monarchas e pontífices. Os cardeaes Richelieu e Mazarini foram por vezes ouvir, so- bre assumptos importantes, o celebre astrólogo Morin. A rainha Catharina de Medices, acatava pouco a religião, mas era muito su- persticiosa, a ponto que, tendo-lhe um astrólogo prophetisado que morreria ao pé de S. Germano, tratou d'alli em deante de se afas- tar de todos os sitios que tinham este nome. Na sua ultima doença foram-lhe mihistrados os sacramentos pels bispo de Nazareth; e quando soube que elle se chamava Lourenço de São Germano, fi- cou de tal maneira aterrada que falleceu instantes depois. Na edade média as potencias invesiveiís eram geralmente acre- ditadas: sentia-se então mais do que se pensava; cabanas, e á noite desce cauteloso, busca o ente humano adormecido, faz-lhe suavemente uma incisão e chupa-lhe o sangue. Algumas vezes tem causado a morte por a ferida interessar uma veia importante. No SeíM"á e sertão de Minas são estes animacs terriveis perseguidores do gado, pois pousando-lhe sobre o dorso chupam-lhes o sangue, debilitando-os, e formando chagas onde se acolhiam insectos, etc* I # . — 4 — As coisas sagradas andavam em contínuos embates com as maravilhas do diabo, e apesar d'este ficar sempre vencido nunca lhe faltavam adeptos, o que não deve admirar pois para ganhar a gloria celeste impunham penitencias com jejuns, celicios e outros martyrios, emquanto Satanaz, sem falar na vida eterna, oíferecia de prompto aos seus apaniguados os maiores gozos mundanos. Os seduzidos confiavam no arrependimento á hora da morte, e nos sufFragios com que os parentes e os devotos lhes salvariam as al- mas. As historias antigas pouco agradam aos leitores românticos; mas nos enredos da comedia humana preferimos, embora nos al- cunhem de massador, as velharias dos archivos que descrevem fa ctos e costumes dos nossos antepassados. Accresce a vantagem de provar aos pessimistas contemporâneos que a immoralidade não tem augmentado com o progresso social, e que, se os escândalos e os crimes se conhecem hoje em maior numero, é isso devido á li- berdade de imprensa, pois n'aquelles tempos a hypocrisia, o fana- tismo e a intolerância dos poderes absolutos attenuavam para o publico, quando não encobriam de todo, os actos mais vis e cruéis. Em assumptos diabólicos aconselhamos a leitura do DicciO' naire infernal ou bibliothéque universelle sur les etres, les personages, les livres, les faits et les choses, etc. De Collin de Plancy, impresso em Paris em 1825. É também interessante o Tratado das causas dos malejicios, sortilégios e encantamentos, de René Benoit, e as Astúcias artificios e imposturas dos espíritos malignos, de Roberto Friez. Para estudo complementar, além de Les annales du suma- turel, revista que se publica em Paris, temos o Ensaio sobre a his- toria das tradições demonologicas, desde a antiguidade até os nos- sos dias, obra monumental de Aristides Genius, publicada por De- lalourd em 1861 a i865. São quatro volumes em 8.° Ahi se encon- tram descriptas tradições demonologicas, colhidas em diversas ori- gens á custa de muito estudo e fadigas, onde o diabo está pintado com as suas lendas documentadas e dispostas systematicamente, com exposição dos exorcismos e efficazes remédios para expulsar os expiritos maus (Jlagellum daemonum), assim como as burlas dos adivinhos, das bruxas, lobishomens, e outras trapaças da arte ma- gica, em que o diabo é sempre o editor responsável. As superstições em Portugal não chegaram a attingir a ri- queza de poesia lendária que se encontra na de outros paizes. Nas — 5 — ordenações do reino, * e nas constituições dos bispados vêem desi- gnadas crenças, abusões e bruxedos, dignos de sérios estudos, re- 1 As ordenações Manuelinas, liv. v, titulo 33, com relação aos feiticeiros e vigílias que se faziam nas egrejas, diz : Estabelesçemos, que toda pessoa de qualquer qualidade e condiçam que seja, que de lugar sagrado ou nom sagrado, pedra d'ara,ou corporaes, ou parte de cada húa delias tomar, ou qualquer outra cousa sagrada, moura por ello morte natural. II E ysso mesmo qualquer pessoa que cm circulo, ou fora delie, ou em encruzilhada espíritos diabólicos invocar, ou a algúa pessoa deer a comer ou beber qualquer cousa pêra querer bem ou mal a outrê, ou outrem a elle, moura por ello morte natural. Pêro em estes dous casos sobreditos nom se fará exe- cuçã, atee nolo primeiro fazerem saber, pêra vermos a qualidade da pessoa, e o modo em q se taes cousas fezeram, e sobre ello mandarmos ho q se haja de fazer. II Outro si nõ seja algúa pessoa tam ousada, q pêra adeuinhar lance sor- tes, nem varas pêra achar auer, nem veja em aguoa, ou em cristal, ou em es- pelho, ou em espada, ou em outra qualquer cousa luzente, nem em espádua de carneiro, nem faça pêra adeuinhar figuras ou imagês algúas de metal, nê de qualquer outra cousa, nê se trabalhe de adeuinhar em cabeça de homem morto, ou de qualquer alimária, nem tragua consiguo dente nem baraço de enforcado, nem qualquer outro membro de homem morto, nem faça com as ditas cousas ou cada húa delias, nem com outra algúa (posto que aqui nom seja nomeada), especia algúa de feitiçaria, ou pêra adeuinhar, ou pêra fazer dano a algúa pes- soa ou fazenda, nem faça cousa algúa, porque húa pessoa queira bê ou mal a outra, nê pêra legar home ou molher, pêra nom poderem auer ajuntamento carnal. E qualquer q as ditas cousas ou cada húa delias fezer, mandamos q seja publicamente açoutado com baraço e preguã pola villa ou lugar onde tal crime acontecer, e seja ferrado em ambas as faces com o ferro que pêra ysso man- damos fazer de huum .ff. porque seja sabido polo dito ferro, que foram jul- guados e condenados por o dito malefício, e mais seja degradado pêra sempre pêra a ylha de sam Tomé, ou pêra cada húa das outras ylhas a ellas comar- cãas, e alê da dita pena corporal, pagaraa três mil reaes pêra quê o acusar. II E por quante nos he dito que em nossos reynos e senhorios antre a gente rústica se usam muytas abusões, assi como passarem doentes por siluaõ, ou machieiro, ou lameira virgem, e assi vsam bêzer com espada que matou ho- mem, ou passasse o Doiro e Minho três vezes. Outros cortam solas em figueira baforeira. Outros cortam cobro em lumiar de porta. Outros tem cabeços de sa- ludadores encastoadas em ouro, ou em prata, ou em outras cousas. Outros apre- goam os endemohinhados. Outros levam as ymagês de algúus sanctos à cerca dagoa, e ali fingem que os querem lançar em ella, e tomam fiadores que se atee certo tempo o dito sancto lhes não der agoa, ou outra cousa que pedem,- que lançaraam a dita ymagem na agoa. Outros revolucm penedos e os lançam na agoa pêra auer chuyua. Outros lançam jueira. Outros dam a comer bolo pêra saberem parte dalgúu furto. Outros tem mendracolas em suas cazas, com entêçam que têdoas por ellas aueram graças com senhores, ou guanharãa nas ^6 presentando os costumes da epocha. Os srs. Theophilo Braga,* Leite e Vasconcellos,^ Consiglier Pedroso ^ e Adolpho Coelho/ já cousas cm que tratarem. Outros passam agoa por cabeça de cam pêra con- seguir algúu proveito. E porque taes abusões e outras semelhantes nom deue- mos consentir^ mandamos e defendemos, que pessoa algíãa nom faça as ditas cousas nem cada húa delias ; e qualqr que o contrairo fezer, se for piam ou di pêra bayxo seja pubricamente açoutado com baraço e preguam pola villa, e mais pague dous mil reaes pêra quem o acusar. E se for vassallo ou escudeiro ou di pêra cima, ou molher de cada híiu destes, seja degradado pêra cada húu dos nossos lugares dalém em Africa por dous annos, e mais pague quatro mil reaes pêra quê o acusar. E estas mesmas penas auera qualquer pessoa que disser al- gúa cousa do que he por vyr, mostrando e dando a entender que lhe foi reve- lado por D», ou algum sancto, ou em visam, ou em sonho, ou por qualquer ou- tra maneyra, e esto se^undo a diíferença e qualidade das pessoas: conuem a saber daçoutes e dous mil reaes no piam e de semelhante sorte, e no vassalo e di pêra cima de dous annos de degredo e quatro mil reaes. Pêro o esto nom auera lugar nos astrólogos que por sçiençia e arte de astrologia, vendo primeyro as naçenças da pessoa disserem algua cousa segundo seu juyzo e regra da dita sçiençia. II Outro si defendemos, que pessoa algúa nõ benza caês, ou bichos nem outras alimárias, nê vse disso sem pêra ello primeiramente auerem nossa auto- ridade, ou dos prelados, pêra o poderem fazer, e qualqr que o contrairo fezer, seja pubricamente açoutado se for piam e di pêra fundo, e pague mil reaes pêra quem o acusar, e se for vassalo ou escudeiro ou di pêra cima, seja degradado por um anno pêra cada um de nossos luguares Dafrica, e mays pague dous mil reaes pêra quem o acusar. II Item mandamos, que pessoa algíãa nom faça vodos nem vigílias de dor- mir, e comer, e beber em ygrejas, nem se ajuntem a comer e beber por razam "das missas que mandam dizer, que chama missa dos sábados^ nem guarde por dauaçam o sábado, ou quarta feira, nom sendo cada húu dos ditos dias man- dado guardar por ordenança da ygreja, ou por cõstituiçam do prelado, e qual- quer pessoa que cada hua destas cousas neste capitulo contheudas fezer, seja presa, e da cadea pague quinhentos reaes pêra quem o acusar. II E ysto mesmo defendemos que nom façam vodos de comer e de beber^ posto que fora das ygrejas sejam, e que digam que os fazem por deuaçam d'al- gus santos, sob pena de todo o que pêra o tal vodo de receber, se paguar em dobro da cadea per aquelles que o assi pedirem e receberem, nom tolhendo porem os vodos do santo espirito que se fazem na festa do pinticoste, porque somente estes concedemos que se façam, e outros nenhíaus nom. li Porê nos lugares onde costumam comer quando leuam os finados, o poderaam fazer sem pena algúa, nom comendo dentro no corpo das ygrejas. * Cancioneiro popular, 2 Tradições populares de Portugal Porto 1882. 3 Contribuições para uma Mythologia popular portuguesa. Lisboa, 1880. * Contos populares portuguei^es. — 7,^ se teem occupado doestes interessantes assumptos em varias pu- blicações, e muito ha a esperar da sua reconhecida competência para lhes dar maior desenvolvimento. Com relação a prodígios temos o preciosissimo livro do nosso dr. Braz Luiz de Abreu, publicado em 1726 com o titulo: Por/^/^j/ Medico ou monarchia medico lusitana, historia pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e comprehendida no dilatado âmbito de dois mundos creados macrocosmo e microcosmo. Foi a obra mais portentosa do seu tempo, offerecida ao príncipe do Brasil, D. José. O censor do Santo Officio, Fr. António da Cruz, diz: «... achar um thesouro de remédios para os enfermos, e tanta verdade em tudo que seria doce para os que gostassem d'elle e amargoso para os que não gostassem, que a verdade, como dizia Claudiano, era tudo juntamente — Veritas dulcis et amara est.-» D. Cypriano de Pina, na licença do paço, ainda se mostrou mais enthusiasta pelo livro, informando: «He tão vasta esta obra em noticias todas com excellente in- sinuação, que se encontra n'ella o Theologico, o Canónico, o Ju- ridico. Lê-se o Philosopho, o Histórico, o Politico. Descreve-se o Poético, o Astrológico, o Arithmetico. Acham-se o Anatómico, o Chirurgico, o Medico. Noticia-se o Zoológico, o Paromymico, o Symbolico. Não falta o Rhetorico, inculca-se o Equivoco; e tam- bém se descobre, ainda que genérico, o Satyrico.» «He tão ingenioso este Escripto no estilo com que combina o que escreve, que sendo as matérias de que falia tão disparatadas por naturesa, quanto são entre sy diversas as entidades que trata; elle ajusta com tal methodo as authoridades do Fisico-Historico com as reflexoens do Symbolico, que não se esquecendo das Mo- raes Paronymias, nos descobre esquisitos Systemas Ethica Politi- cos; e nos doutrina com admiráveis Syntagmas Medico-pra ticos.» D'esta encyclopedia, que tem Equivoco, nãQ. é permittido du- vidar por causa do amargor imposto por Fr. António da Cruz, e o leitor só tem a escolher o assumpto que melhor lhe convier, se- gundo a lista das sciencias indicadas pelo desembargador do Paço. O dr. Braz, * pelo que leu em alguns auctores, classifica o ho- * O dr. Braz Luiz de Abreu perdeu um olho em rapaz, que substituiu de- pois por um de vidro, engenhosamente feito, pelo que lhe chamavam o olho de vidro. A sua vida presta-se para um interessantissimo romance, com variados — 8 — mem e a mulher nas seguintes espécies — gigantes, pigmeus, an- dróginos, monstruosos e prodigiosos. Não podemos resistir á tentação de transcrever alguns d'esses estupendos phenomenos, que o dr. Abreu authentica sempre com a citação do livro, d'onde copiou taes maravilhas. Com relação aos gigantes da antiguidade diz: «ser dos mais celebres o que os Rabinos citam no seu Talmud. . . tinha tal gran- deza, que sendo Moysés da altura de dez covados, com um salto da mesma altura, e com uma lança do mesmo comprimento, o que sommava trinta covados, apenas conseguiu ferir o gigante no tor- noselo. . . (!) O gigante morreu da ferida e o corpo ficou no campo servindo de pasto aos corvos. Passados annos estava o esqueleto desconjuntado, e indo um caçador a cavallo perseguindo um veado entraram de corrida n'uma espécie de túnel, gastando seis horas até á sahida.. . Vericou-se depois ser o túnel a canella do gigan- te!... O Albulense, para não restar duvida, reputa esta historia de- lírio insano. «Gabino afi&rma ter visto na Mauritânia o esqueleto de Anteo com o comprimento de setenta covados. Plinio descreve um cadá- ver com quarenta e seis, e Apolonio diz que n''ama ilha, visinha de Athenas, se achara o sepulchro de um gigante que tinha cem covados de altura, dizendo o epitaphio haver vivido cinco mil an- nos.» Emquanto aos pigmeus escreve que sempre tiveram certo va- lor e de preferencia os mais feios. O imperador Domiciano pos- suiu grande numero d'elles, que bastante o divertiam. Na edade média foram também muito apreciados: serviam de pagens aos senhores feudaes, havendo alguns que gosavam alto valimento com os soberanos, chegando a receber o titulo honorifico de anão do rei, emprego de grande importância e rendimento. A historia de- signa os mais notáveis pelos seus nomes, descrevendo o tamanho e prendas de que eram dotados. episódios de cunho nacional, e já em parte aproveitados pelo eminente escri- ptor Gamillo Castello Branco. O seu livro Poitugal Medico, onde desordenada- mente, em prosa e verso, nas línguas latina, portugueza e hespanhola, qaíz mostrar vasta erudição, está recheado de puerilidades e inverosimilhanças, que documentam em citações clássicas o grande atrazo em que se achava a medi- cina como sciencia em toda a Europa, e com especiahdade em Portugal. — 9 — O dr. Braz soccorre-se também á sagrada escriptura e ao tes- temunho de Plínio, Pomponio Mela, Bernardo Gondonio, e Gtesia Guidio. Cita um rei indiano possuidor de três mil pigmeus, que o escoltavam quando jornadeava, por serem muito destros no tiro de seta. Homero, Ovidio, Juvenal e outros escriptores contam as porfiadas guerras que uns homunculos, montados em cabras, ti- veram com as gralhas, fazendo as casas de pennas e cascas dos ovos d'estas aves. Em tempos mais modernos escreveu Nierem- berg, sem poesia, que um anão chamado Bonami fora levado de presente a Filippe III de Gastella, e um fidalgo o pendurara com um alfinete no panno de arras da sala do palácio. Houve outro tão pequeno que nas bodas de um duque de Baviera fora á mesa dentro de um pastel, e quando partiram este, saltou de espada em punho fazendo esgrima e esgares, com que os convivas muito fol- garam. Paulo Zacarias* refere que a condessa Margarida, filha de um conde florentino em HoUanda, tivera de um só parto 355 anões, que todos foram baptisados n'uma bacia, não excedendo cada um o tamanho de uma noz (! !). Calcia, mulher de G. Atilio, teve de um prodigioso parto nove filhas, que confiou a Santa Silla para as lançar ao rio; mas ella entregou-as ao prelado Ovidio, que as baptisou e fez crear por di- versas amas christãs com a doutrina e instrucção evangélica. Mais tarde, com a parteira Silla, ganharam a palma do martyrio.^ João de Mandavilla conta que na ilha Defracan havia uma es- pécie de pigmeus que não tinham bocca, e se nutriam pelos na- rizes com o cheiro de fructos silvestres, e de varias plantas aro- máticas. No século XVI Pedro d'Ailly, uma illustração do clero francez e da Universidade de Paris, descreveu os pigmeus da Iddia, os monóculos, homens com um só olho, e os cfnocephalos com cabeça de cão. . . alii qui canina capita habcnt. Dos homens andróginos ou hermaphroditas bastará citar o mais notável, teve filhos como mulher, e depois os houve como homem de uma mulher. Dos monstruosos, além dos arthabatristas, que eram quadrú- pedes, menciona um phenomeno existente em Roma no anno 14^/6» * Quaest Medicoly, liv. vii, foi. 529. 2 Vasconcell. in Descrip., pag. 446, — iO — também citado por Nieremberg, que se pode considerar um verda- deiro enxerto animal — vinha a ser um corpo humano todo coberto de escamas, com peitos de mulher, cabeça de burro, uma das mãos de elephante, um dos pés de boi, o outro de águia, uma das ná- degas representava a cara de um velho barbado, e a outra a de um dragão ... Diz o mesmo consciencioso escriptor que entre os tártaros havia homens só com um braço e uma perna, e sendo muito destros em atirarem á setta, juntavam-se aos pares segu- rando um o arco e o outro despedindo o tiro. Diz mais que os tu- ranucos tinham as orelhas tão compridas que chegavam ao chão, e que as dos Stemollas eram tão largas que os seus donos se cobriam com ellas. Os Nigritas possuiam o beiço inferior de tal modo dis- forme que lhe cahia até o ventre, e no tempo quente era preciso salgal-o para se não corromper. . . Os Sciopedes (de seio, sombra, pedes, pés) tinham pés enormes de modo que deitados no chão fi- cavam á sombra d'elles. Torquemada cita exemplos de pessoas com duas linguas, ou uma bipartida, falando coisas diversas, per- guntando e respondendo ao mesmo tempo. Seria abuso relatar os numerosos phenomenos descriptos no Portugal Medico, que tanto encantaram os seus censores, e em- quanto a homens prodigiosos citaremos apenas os dois seguintes: S. Jeronymo viu em Roma uma mulher viuva de 22 maridos, e casando com o 23.^, também viuvo de 20 mulheres, este teve a fortuna de lhe sobreviver. Quando acompanhava o corpo da que- rida consorte á sepultura, foi levado em triumpho, coroado de loiro e com a palma na mão. Mas excede tudo quanto a antiga musa canta e pode cantar, o facto ahi mencionado, descripto por Fr. António Fuentelapèna, no qual um Luiz Rosei sentiu, por me- zes, uma dor intensíssima na coxa direita, onde se formou volu- moso tumor, que cresceu progressivamente até ao nono mez, e por fim sahiu d'elle um menino vivo, que se baptisou com o nome de Luiz, como seu pae!. . . Sobre taes assumptos os commentarios e a critica só repre- sentariam hoje perda de tempo. DIABRURAS SATANAZ As historietas diabólicas passadas no nosso fidelissimo Portu- gal e suas possessões são numerosas: esboçaremos apenas algumas crenças que teem amedrontado as creanças e muitos adultos, e que provam como a egreja e os médicos antigos souberam triumphar das tentativas infernaes, minuciosamente registadas nos milagres narrados pelos auctores mysticos. Variadíssimos são os nomes por- que é conhecido o rei dos infernos, e como principaes temos — Diabo, Diacho, Demónio, Lusbel, Belzebuth, Satanaz, Asmodeu, Lúcifer, Behemot, Ahasvero, Leviathan e outros muitos. * É um arremedo de prosápia genealógica, mas a arte heráldica ainda lhe não designou os symbolos do brazão. Os gregos e romanos, que inventaram a mythologia, aranja- ram o seu Plutão enthronisado no inferno com a consorte Prosér- pina^ cercados pela corte diabólica, e guardados pelo terrível Cer- bero. O christianismo não lhe deu tão importante posição, pelo seu * Fr. José de Jesus Maria, Brognolo recopilado e substanciado^ etc. A pag. 24 vem a etymologia d 'estes nomes. 2 A esta deusa infernal erigiram os carthaginezes um grandioso templo em-Villa Viçosa; e segundo dizem alguns historiadores em Évora houve outro. .— 12 — ruim e incorrigivel comportamento: despenhou-o para as mais pro- fundas trevas, chamando-lhe anjo maldito e deixando-o em liber- dade de imaginar e pôr em pratiea toda a casta de diabruras. Desde então refinou em maldade e tornou-se acérrimo perseguidor de tudo que ha de santo e bom. Alguns cérebros poéticos até chegaram a descrever o grande império infernal com Belzebuth tendo ás suas ordens sete reis, com os nomes: Baèl, Pursan, Bytelh, Paymon, Bélial, Asmodeu e Zapão, além dos principes e mais altos funccio- narios da corte. Collige-se do que deixamos dito que o diabo é muito antigo e deve ser estudado archeologicamente. Os santos padres indicam como primeiras victimas de Sa- tanaz os nossos respeitáveis avós Adão e Eva, o que deu causa a serem expulsos do Paraiso. Desde então tem-se vulgarisado pela tradição e em escripturas muitas lendas, onde o diabo é o proto- gonista. N'essas historias sobrenaturaes, e até nas chronicas mysticas do passado, vem, quasi sempre, as diabruras envolvidas com as santidades. Os estratagemas do espirito maligno são antigos e muito va- riados. As beatas teem-lhe ódio figadal: attribuem-lhe todos os seus males, presentem-no pelo faro divino de que são dotadas, e en- xotam-no com — o vade-rectro Satanás — f arrenego maldito ma- farrico, canhoto, cão tinhoso, porco sujo, vae-te e não tornes e no tornares te afundas, palavras, que para bom effeito, precisam de ser ditas com os dedos indicadores em cruz. Em Portugal ha sitios onde Satanaz tem moradia permanente. Na Cuba existe a Fonte do Diabo no centro da Praça da Rainha: é coberta por uma abobada, onde está pintado S. Miguel com o demónio aos pés. É crença popular que alli se reúnem todas as noites as bruxas, lobishomens, espectros, duendes e phantasmas, e que, depois de receberem as ordens do satânico chefe, se espa- lham a fazer maleficios, e quem por alli passa na occasião dos taes conciliábulos, sem resar o credo em cruz, é agarrado pelos demó- nios e trucidado. No caminho, entre Ponte de Lima e Nossa Senhora da Guia está a chamada jPe<ira do Diabo, onde o vulgo diz ver o signal das suas unhas. A ponte de S. João, que fica a uma légua de Guimarães, é também locanda do diabo. Quando os doentes d'aquellas circUm- — 13 — visinhanças desesperam da cura pelos remédios da botica, vão á meia noite acompanhados de um padre, levando um alqueire de milho painço, que deitam da ponte abaixo com três punhados de sal, emquanto o padre impõe a Satanaz a obrigação de deixar em paz o misero enfermo. Na ermida de S. Bartholomeu, que fica nas margens do Tâ- mega, junto á ponte de Cabez, faz-se no dia 24 de agosto uma grande romaria, onde concorrem os endemoninhados. Logo que avistam a capella, os espíritos malignos começam a fazer saltar as pobres creaturas com terríveis contorsões, visagens patheticas e gritos desentoados; mas ao chegarem ao altar do santo, vomitam todo o fel diabólico e ficam logo sãs e escorreitas. Scenas quasi idênticas se praticam na romaria das Neves, no mosteiro da Lagoa, próximo a Fafe. Algumas mulheres visionarias. Imaginando ter o diabo no corpo, tratam de o expulsar tocando com a cabeça no corpo do santo. Estas extravagantes crendices do povo dão sempre logar a ri- dículos episódios, a que nem o próprio Satanaz poderia suster o riso. Faz lembrar aquelles engraçados versos de Garrett, quando descreve o membrudo capucho que a duros golpes de estola, bri- gava com o diabo para o fazer sahir do bojo de uma beata jubi- lada, onde se havia encaixado, e por fim só o conseguiu com va- lente hyssopada. O demo desamparado e escaldado pela agua benta, procura novo abrigo, e vendo próximo o gallego Thiago a fazer- Ihe zombaria, perguntou ao frade para onde se havia de encaixar, e o capucho com ar de escarneo indica o c. . . do gallego. . . Thiago não se assarapantou e assim o canta o poeta: Conhecem-se os grandes homens Nas grandes occasióes: • Thiago, sem mais demora, Deitou abaixo os calções, E em menos tempo ainda Do que o demo esfrega um olho, Já na pia da agua benta Tinha elle o seu de molho. Bate quatro palmadas No rechunchudo de traz E diz-lhe «Agora sô diabo Venha para cá se é capaz.» ^ ^ Folhas cahidas, 4." edição, pag. 82 a 87. — 14 — Será passivel o diabo entrar no corpo de uma alma chris- tã?... Os theologos dizem que sim e estas auctoridades são indis- cutiveis. O padre, em virtude do seu ministério, acha-se collocado entre Deus e o diabo: d'aqui deriva a sua inspiração para extremar sem- pre o bem do mal, e ensinar aos cegos peccadores o verdadeiro caminho do céo. Dizem elles que com dois fins entra o demo no corpo hu- mano: ou para o atormentar, ou para lhe perverter a alma. Isto acha-se authenticado no Evangelho de S. Lucas, S. Marcos e S. Matheus. Ahi estão bem claras as regras que devemos seguir para nos precaver contra tal inimigo, e também se descrevem os meios a empregar para, no caso dè elle entrar no corpo, o expulsarmos com as virtudes espirituaes. O convento de Campolide, * recebeu as suas religiosas com grandes solemnidades a 25 de junho de 1722, e mezes depois in- troduziu -se alli o diabo, fazendo coisas do arco da velha. Apesar de haver linguas viperinas que temerariamente lhe davam diverso responsável, o patriarcha D. Thomaz de Almeida, conhecedor de que os mesmos boatos eram obra do demónio, para assim me- lhor escapar ao flagello do hyssope, acudiu logo ás pobres freiras, nomeando-lhe os mais doutos exorcistas, e entre elles, o bom Fr. José de Jesus Maria, Ulissiponense, pregador, que se dizia in- digno filho da Santa Província da Arrábida. Este zeloso frade empregou contra o demo o methodo do sapientissimo Fr. Cân- dido Brognoío da seraphica família e, para pôr ao alcance de toda a christandade portugueza tão utilitária doutrina, traduziu do italiano a sua arte de exorcizar com o seguinte titulo: Brognoío recopilado, e substanciado com additamentos, de gravissimos au- thores; methodo mais breve, muy suave, e utilissimo de exorci:{ar, expelindo demónios, e desfazendo feytiços, segundo os dictames do sagrado Evangelho. Conforme a mente e doutrina do doutíssimo,., Collegido, resumido e traduzido da lingua latina, italiana e hespa- nhola na portuguesa para clareia dos exorcistas e bem dos exor- cizados. . . Foi impresso em Lisboa em 1726 e teve tal acceitação que dois annos depois corria já nova edição em Coimbra. ^ De Nossdi Senhora dos remédios^ de religiosas trinitarias, no sitio do Rato* hoje extincto e servindo de asylo a órfãs. — 15 — Que as suas orações eram infalíveis contra toda a corte in- fernal basta ver a censura da Santa Inquisição, que n'esta matéria lia de cadeira, dizendo Fr. Pedro do Sacramento : «... a obra con- tem muitas e boas armas deffensivas para livrar-nos (Taquelle ad- i'ersario (o diabo)... que tamquam leo rugiens circumit quaerens quem devoretj) O livrinho é todo polpa de prima qualità, e visto termos a fortuna de o possuir vamos extrahir-lhe algum sueco instru- ctivo. Assevera o padre Bro^nolo e confirma Fr. José, em resultado das suas profundas investigações: — que o demónio quando entra no corpo humano faz um minucioso exame dos seus temperamentos e humores, escolhendo os órgãos onde pode mais facilmente se- mear alguma moléstia. Como ao diabo nada escapa, começa logo a sua faina comprimindo e atormentando a tal entranha, e con- forme ella é, assim causa dores mais ou menos intensas, chagas, frenezins, cegueiras, surdez, febres e todos os mais achaques do Índice pathologico, que costumam fazer sofFrer e acabar a triste hu- manidade. A egreja chama ás pessoas atormentadas pelo diabo, quando externamente Obcessos, quando no interior Possessos; aos que sof- frem moléstias por intermédio de alguma feiticeira Malejiciados; aos que Satanaz costuma levar pelos ares e ventos Arrepticios ; aos advinhos Pithonicos; aos atormentados nos quartos de lua. Lunáticos; aos que falam e executam por intervenção diabólica, sem d'isso terem consciência. Fascinados, etc. Doestes uns se di- zem Energúmenos, outros endemoninhados e outros vexados. Quando o diabo apparece em forma de qualquer animal, por exemplo rato ou gato, chamam-lhe Arrimadiço, Os que forem mais exigentes leiam os livros de liturgia, onde os santos padres dizem que o diabo, como grande manhoso, vae pela sucapa fisgando as almas christãs, alluindo os baluartes da fé; e para estes males só aconselham, como mais efficazes, o baptis- mo, as orações, a communhão, a agua benta, o signal da cruz, as relíquias dos santos, etc. O que vale também é o diabo ter uma capa para cobrir e um chocalho para descobrir as suas diabruras; e os padres adivinhan- do-lhe os desígnios esperam-no de cruz em punho e hyssopc er- guido, frustrando-lhe as malditas intensões. O bestunto do anjo-maldito conversou muito com os seus bo- .— 16 — toes para resolver novo plano extrategico, e as bruxa?, a sua tropa mais finória, foram chamadas ao serviço activo contra as virtudes da humanidade. Foi o salvaterio do demónio; porque as suas sa- télites portaram-se tão ladinamente que os homens da religião, de mãos dadas com os da sciencia galenica, andaram por muito tempo ás aranhas, sem poderem atinar com a causa dos males epidemi- cos, que se desenvolviam em grande escala, o que fazia rir o velho Satanaz de mãos nas ilhargas. Pelo outro lado também não estavam com as armas ensari- lhadas. Além do já citado Fr. José de Jesus Maria com a sua tra- ducção do Brognolo, Fr. João de Vasconcellos, do convento da Trindade de Santarém, onde professou no anno de 1725, publicou em 1737, com o pseudonymo de P.® Nicolau Carlos Vejecee, sa- cerdote lisbonense, o interessantíssimo livro com o titulo: Escudo santíssimo e armas da igreja contra a malícia diabólica com que os espíritos immundos, juntando-se torpemente com as bruxas ou feiti- ceiras as tomam por instrumentos para infestar os caminhos, in- quietar as casas, aterrar os moradores com fantasmas nocturnos, e matar os meninos innocentes antes do baptismo, tiradas da Escri- ptura sagrada e das orações da igreja. * O christianismo tendo por base as leis da moralidade, da ca- ridade e da justiça, no seu progresso civilisador vae conseguindo banir estas ridículas crendices que falseiam a sua santa doutrina e agrilhoam os espíritos pelo fanatismo estúpido. Parece que o diabo não é tão feio e tão mau como os nossos avós o pintaram. 2 O maldito, para melhor se vingar dos padres, que mais o desacreditavam e perseguiam, deixou de ser terrífico e fiJiou-se no partido anarchista. Se os seus precedentes lhe não dão direito, pelo receio de escândalo, a entrar nos salões da alta sociedade, no theatro é bem acceito como artista dramático, de 1 No Diccionario Bibliographico de Innocencio da Silva não se faz men- ção doesta importante obra, provavelmente, do mesmo auctor da B^estauração de Portugal Prodigiosa; mas vem citada por Barbosa Machado na sua Biblio- theca Lusitana. 2 Já vimos n'uma egreja um quadro, exposto por um devoto, represen- tando uma mulher cabida no chão, e uma corda suspensa no tecto, formando na extremidade laço, e por baixo a seguinte legenda : Milagre que fe^ o Senhor Jesus a Maria das Neves^ a qual tendo armado um laço para se enforcar por tentação do diabo o mesmo a livrou. — 17 — ordinário vestido de encarnado, com cabelleira ruiva d^onde sahem cominhos dourados, olhar flamante e faiscante, envolto no fogacho de enxofre, mas o rabinho quasi sempre escondido. Assim o temos visto representando nos principaes theatros, que seria longo espe- cialisar, até em papeis de protogonista, algumas vezes com ade- manes graciosos ou burlescos posto que vulgarmente apparece como tyranno. II FADAS, FEITICEIRAS E BRUXAS O assumpto doeste capitulo presta-se também a longas dis- sertações: faremos, porém, diligencia de o resumir o mais possí- vel, seguindo os auctores de melhor credito. As fadas são encantos, de corpo gentil, rosto formoso, olhar meigo e cabellos cor de oiro. Representam o génio do bem. No mesmo caso poderemos considerar as moiras encantadas, que pertencem á mythologia peninsular. São também lindezas, que apparecem geralmente nas fontes, e com a sua formosura seduzem os mortaes. As feiticeiras, de extrema belleza mas com mau instincto, teem olhar vertiginoso, modos frios e retrahidos. Associadas com os espiritos infernaes, usam de muitas artimanhas para illudirem as pessoas ignorantes e fracas, incutindo-lhes pensamentos satâ- nicos. As bruxas e mulhtres de virtude são quasi sempre velhas im- mundas, de aspecto repelente. Resmungam em rouquenho orações cabalísticas estropiando algum latinório; mas para fazerem os sor- tilégios teem de pedir a intervenção do diabo. Na AUemanha os feiticeiros usam vestuário especial, que os destingue. Quando exercem as suas profissões, paramentam-se com uma túnica de couro, coberta de Ídolos recortados em folha de Flandres, campainhas, anneis e cadeias do mesmo metal, e põem — 19 — na cabeça um barrete alto com idênticos ornatos e encimado por uma penna de mochd* O theatro das consultas mysteriosas são de ordinário as cavernas, allumiadas pela chamma de paus resinosos. Começam as suas funcçòes magicas pelo toque de um instrumento, semelhante ao tambor, acompanhado de campainhas, produzindo certa harmonia lúgubre. Depois o feiticeiro aspira grande porção do fumo de tabaco, e, fazendo muitos tregeitos e visagens, cahe por fim em lethargo. N'este estado considera-se inspirado para res- ponder ás consultas, e havendo caso de doença, também se presta, por certa quantia ajustada, a combater o diabo, sahindo sempre vencedor e com vantagens positivas para o enfermo, segundo elles garantem. Os feiticeiros para o meio dia da Europa são mais raros que as feiticeiras. O nosso dr. Braz de Abreu, no Portugal Medico, descreve-as magistralmente, dizendo: «... recebem o poder malé- fico das mãos de Satanaz e são suas emissivas. Das partes que roubam aos mortos fabricam uns pós, com os quaes infeccionam as hervas, os fructos, damnam a saúde e provocam discórdias. Es- palhando os ditos pós pelo ar, nos caminhos, nas escadas, nas ca- sas, nos fatos, nas pias de agua benta, e as pessoas que os tocam não tardam em adoecerem, havendo muitos casos de morte. » Cita o mesmo auctor o insigne Torreblanca^ que descreveu a mortali- dade que por este motivo houve em Itália em i63o, dando causa ao decreto de Filippe IV de Gastella, publicado em 7 de outubro do mesmo anno, impondo severo castigo a quem usasse ou intro- duzisse nos seus estados aquella peste, e offerecendo grandes pré- mios a quem descobrisse os auctores do terrível maleficio. Em Lisboa tomaram-se serias providencias para se não im- portarem do extrangeiro os taes pós que desenvolviam a peste, fis- calisando-se minuciosamente os navios que entravam a barra. Fr. Manuel de Lacerda, douctor e lente de theologia na Universidade de Coimbra escreveu: Memoria e antidoto contra os pós venenosos que o demónio inventou, e por seus confederados espalhados em ódio dã christandade. Impresso em Lisboa, i63i, 4.*^ de viii-iytS pag. Estas prevenções contra os pós confirmadas posteriormente pela doutrina do dr. Abreu, são prova de que um dos males que a humanidade mais deve receiar é o morbus diabólico. O dr. Braz de Abreu foi homem de grande conceito clinico, curando doentes na cidade do Porto e em Aveiro, reforçado com o titulo de familiar do Santo Oflicio. Por motivos particulares, 2# . —20 — separou-se amigavelmente da esposa e das filhas, e vestiu o ha- bito de S. Francisco. Por esta forma ficou duplamente habilitado e quando não podia salvar o corpo do enfermo, encaminhava-lhe a alma para o paraiso. Confirmada a sua theoria medica, acabando o diabo e toda a sua corte de diabretes, feiticeiras e outros perseguidores do gé- nero humano, os filhos de Esculápio seriam os cidadãos mais bem quistos na sociedade; convidados indistinctamente para baptisados, casamentos e enterros, tendo apenas os encargos de receitarem os banhos do mar ás solteiras, as limonadas e as aguas thermaes ás casadas, os unguentos para callos ás velhas, e todos teriam a ven- tura de morrer sãos e escorreitos, quando batesse a sua hora final. As funcções satânicas são ás vezes exercidas pelos homens; mas como deixámos provado, á ultima evidencia, as mulheres são muito mais fáceis de catechizar, ou hypnotisar pelo demónio, por nervosas, ou levianas. Já úm antigo escriptor disse: Quid levius fumo? Flamen: Quid flamine? Ventus: Quid vento ? Muiier : Quid muiiere ? Nihil. Felizmente nem todas as balanças dão este resultado. Uma das cerimonias mais solemnes da feiticeiria e da bruxa- ria é o invocar o diabo. A maga Celestina dizia assim: aConju- ro-te rex Pluto, soberbo capitão dos espíritos damnados, e senhor dos sulfurosos fogos, que as cataratas Ígneas brotam!. . . Tua hu- milde escrava te conjura pela virtude doestas lettras vermelhas, es- criptas com o sangue das corujas, e em papel feito com a peço- nha das viboras.» Quando não era logo attendida empregava as ameaças... «Se me não satisfazes, cão tinhoso, serei tua inimiga capital, alumearei os teus soturnos cárceres, chamar-te-hei menti- roso, e arrastarei o teu horrível nome pelas ruas da amargura...» Mas estes azedumes eram apenas valores entendidos para il- — 21 — ludir os profanos, tal como se usa na politica parlamentar, e com taes armadilhas enganam os cegos da razão e perdem as almas, que é o fito de Satanaz. A mimica que acompanha a invocação é sinistra. . . olhos em alvo com inculcas de inspiração, mãos abertas, braços estendidos. Á voz dão som plangente, semelhante ao uivar do lobo ou ao guin- cho das aves nocturnas. Se querem enfeitiçar alguém pedem vénia ao demo e repetem três vezes : Tenato, ferrato, andato, passe por baixo, e a victima começa logo a sentir as terríveis consequências. Também recorrem ao poder de Prosérpina, mulher do diabo, ás Eumenides, fúrias infernaes, ou a Cocyto, Acheronte, Phlege- tonte, rios do inferno, etc. As feiticeiras e as bruxas para adivinharem precisam o dom da dupla vista e servem-se da peneira {coscinomancia)^ atada a uma tenaz. Levantam-n'a com. dois dedos, emquanto pronunciam os no- mes de pessoas suspeitas de algum delicto, e se a peneira oscila a qualquer nome é esse o do individuo culpado. Auxiliam-se também com a varinha, virga divida, ou virga Moysés, pela semelhança com a sua portentosa vara. Os hespa- nhoes chamam-lhe varilla de inrlude e os pprtuguezes varinha de condão. Estas escravas de Satanaz teem o Deus na bocca e o diabo no coração, e segundo dizia Santo Agostinho com o mel das pala- vras santas encobrem o veneno do encanto. Os meios de adivinhar são diversos e teem a sua nomencla- tura technica. Assim,' quando nas suggestões empregam a terra, chamam-lhe geomancia, o ar aerimancia, a agua, onde espelham na sua superfície o que interessa aos alucinados hydromancia, e quando o fogo, pyromancia. N'este ultimo caso lançam no bra- zeiro uma porção de enxofre em pó: se a chamma sahe unida é infelicidade; se dividida em três, siiccessos gloriosos; se espalhada, morte ou inferno ou doença ao são; se tremula, desgraça; apa- gando se de repente, perigo eminente, etc. Servem-se também da buena-dicha ou chyromancia, adivinha- ção pelas linhas das mãos, e quando pelas unhas onomancia. A chyromancia foi cultivada pelos augures na antiga Roma por forma especial. Aristóteles foi um dos seus mais celebres pro- pagadores. Na edade média os bohemios especularam muito com a leitura da buenadicha, e preferiam sempre o horóscopo da mão •—22 — esquerda, considerado infallivel por ser do lado do coração. Aberta a mão do pobre crente tiravam induções da disposição das linhas, que partem da base dos dedos e terminam nas grandes linhas transversaes, e no seu cruzamento é que diziam estar o presagio. No fim do século xvii a arte de adivinhar o futuro foi decar hindo de importância, principalmente depois da morte de Desbar- roles, o mais espirituoso chyromante que se tem conhecido. Nos últimos annos do século passado tomou a arte maior in- cremento, appareceram novos adivinhos apregoando a infalibilidade do horóscopo; e admira que tal mania se vá hoje desenvolvendo quando o realismo parece ser a idéa predominante. No reinado de D. João V tornaram-se notáveis, pelos seus sortilégios as feiticeiras Rastholha, Isabel da Natividade, da Moita mas residente em Alcácer do Sal, as irmãs Salemas, mulatas de Setúbal, e outras. Ainda ha quem consulte a buenadicha, lida ordinariamente pelas ladinas ciganas, que vagueiam andrajosas nas feiras e mer- cados, cavalgando bestas lazarentas e estropiadas, e bivacando junto aos povoados. E uma raça de párias com typo caracterís- tico e repelente á civilização, e teem como industria tosquiarem burros, negociarem cavalgaduras aleijadas e enfermas, sempre sem escrúpulo e com má fé, rapinando o que podem. A chyromancia também andou ligada com a astrologia, por isso dão ao dedo polegar o nome de Vénus, ao anelar o de Apollo, ao médio o de Saturno, etc. A interpretação dos vaticínios, dizem os mestres na arte, é (Jifficil, e precisa-se estar bem iniciado para se tirarem deduções exactas. Seria espinhosa a tarefa de compendiar n^este opúsculo todos os processos que a magica branca e preta tem empregado para conhecer do passado, interpretar o presente e adivinhar o futuro. Dizem que as feiticeiras e as bruxas são mulheres captivas pelas mercês e encantos do diabo, a quem se entregam em corpo e alma em troca do poder maléfico; e, segundo a opinião dos ^n-. tigos e modernos mágicos, o demo prefere sempre as novas e la^ — 23 — dinas por mais aptas para seducções. Os mortaes partilham a mes- ma opinião. As corypheas, entradas na abominável homenagem ao demó- nio, renegam o seu Deus e são logo entregues, cada uma ao seu diabrete, que á laia de cicerone se encarrega de lhe fazer untar a pelle com um óleo especial, guiando-as a deshoras por ares e ven- tos, por cima de toda a folha, a cavallo na vassoura, aos grandes congressos, onde vão juntar-se e invocar em gritos desentoados, semelhantes ao grasnar dos corvos, o génio do mal pelos nomes de Gob, Giver, Simeal, Maimont, etc. A velocidade com que viajam n^essas noites é egual á do re- lâmpago. As reuniões ordinárias, dizem, são á meia noite das sextas feiras, em certas encruzilhadas, ou nas margens dos rios onde se costumam banhar. Ahi tem logar a orgia do sabbat, com danças phantasticas e cânticos soturnos, terminando o pandemonio pela ceia distribuída pelo diabo de cauda recurva, sendo o guisado fa- vorito composto de sapos, cobras e aranhas, temperado com san- gue de ratos e de cágado macho. Contam os que teem avistado de longe esta tétrica festa que entre sombras mysteriosas se nota o luzir dos pyrilampos, produ- zindo o panorama uma tremura assustadora com um arrepio que chega á medula dos ossos. Nos conciliábulos solemnes o monarcha infernal apparece sem- pre com o estrondo do trovão, radiante de fogo, cercado de signos cabalísticos, de serpes enroscadas, de mochos, de morcegos e de outros animalejos das cavernas; mas a figura é de homem comi- gero, variando ás vezes em cão, gato preto, bode vermelho, etc. N'estas assembléas são marcadas as novas proselytas com as gar- ras do demónio protector, e ellas, em signal de reconhecimento e submissão, osculam-n'o no coccyx, recebendo n'essa cerimonia os novellos fiados do pello de bode e dobados pela esposa ou mãe do diabo. Os novellos são maiores ou menores conforme a considera- ção em que são tidas, e n'elles reside essencialmente a força e o poderio das feiticeiras, que soffrem grandes torturas, quando estão para morrer, se não encontram pessoa a quem os possam legar, ficando a herdeira com o direito de preferencia ao logar vago na legião diabólica. Filiadas no satânico comité^ espalham-se com o livro dos ea- conjuros pelo mundo a fazer enguiços e arrelias ao género humano, á ordem do patrono ou por conta própria. — 24 — Os mais acreditados escriptores antigos, consultados sobre estes assumptos, são concordes em afiançarem que as mofinas pre- ferem nos sortilégios as creanças, de quem extrahem os engredien- tes e d'onde preparam os óleos para se untarem quando voam de noite. Além d'isso o sangue juvenil e outros líquidos que dellas sugam, conservam-lhes, e até mesmo lhes restituem a mocidade, no caso de passarem dos vinte e cinco annos. Será este o elixir de longa vida de Cagliostro ou o que Mephistopheles applicou ao ve- lho Fausto para lhe restituir a juventude? Brown Séquard parece ter ultimamente descoberto este espe- cifico ou outro de idênticos eíFeitos, e ufano apreguou w^hi et orbi o rejuvenescimento humano, pelas injecções hypodermicas com lquidos orgânicos. A sciencia procede a experiências. anno passado em Barcelona dois médicos, depois de aturados estudos n'um laboratório da rua de S. Pausiano, também suppõem ter conseguido uma limpha, a que pozeram o nome de Karaphantiton, do Ghaldaico, que significa vitalidade permanente, a qual injectada pela epyderme não remoça mas conserva a mo- cidade, retarda a velhice, etc. A restituição da mocidade por mercê satânica tem feito entrar milhares de velhas na feitiçaria, obrigando o diabo, para atalhar tão grande mal, que lhe enfraquecia o poderio, a limitar o numero, e nas vagas a abrir concursos, onde escolhe sempre as mais bo- nitas e recommendadas. Asseveram alguns theologos que as bruxas ou feiticeiras para porem em pratica os seus malefícios tomam diversas formas, ge- ralmente as que mais podem seduzir os encautos peccadores des- armados contra o poder do demo, abusando assim da fraqueza da carne. Se as malditas encontram algum menino são e escorreito, que não tenha buraquinho por onde o possam chupar, empregam, em- quanto o diabo esfrega um olho, o poder fascinador, dando o mau olhado e produzem o quebranto, e n'este caso precisam sempre ajuda diabólica. Diz S. Thomaz — horrendum fasdnus, e Virgílio — Néscio quis teneros óculos mihi fascinai agnos. * É crença popular que ao encontrar qualquer mulher suspeita de feiticeira, fitando com pertinácia, o cuspir logo fora é perserva- tivo infalível contra o mau olhado, 1 Ecla 3.« Conta o dr. Braz, no seu Portugal Medico, * que o insigne Hieronimo conhecera um individuo com taes e tão pestilentas qua- lidades na vista, que facilmente com um só olhar matava os ho- mens, os brutos e as aves, murchava as flores, consumia os fru- ctos, seccava as arvores e (como se ainda isto não bastasse) con- sumia o mundo! Quem for mais exigente sobre este phenomeno leia Manuel Teixeira de Azevedo, que tratou magistralmente da fascinação, olhado ou quebranto, e que é enfermidade mortal, não só para os meninos, mas também para os de maior idade com todos os signaes para se conhecer, e os mais experimentados e selectos remédios para se curar. As feiticeiras levam muito longe as suas crueldades pelas sug- gestões do diabo no seu intestino ódio. Chegam a fazer bonequi- nhos de cera, barro ou trapo, figurando a pessoa que pretendem martyrisar, e, conforme a aversão que lhes teem, com instrumento, quasi sempre agulhas ou alfinetes, vão picando o coração, os olhos, os rins e outras partes do boneco, invocando sempre o demónio. A proporção que se produzem as espetadellas, a misera creatura, que é assim representada, vae logo sentindo nas partes correspon- dentes ao seu corpo, dores atrocíssimas. Os médicos capitulam isto de rheumatismo gottoso e nervosismo e mandam os enfermos para as Caldas. D'estas figuras symbolicas fala também o nosso Zacuto.^ Em França foram justiçados dois feiticeiros que tentaram matar o rei Carlos IX e Henrique de Guise, espicaçando os bonecos que os representavam! Dizem os chronistas que muitos imperadores, reis e grandes personagens teem sido victimas de tão infernal diabrura. Succedeu o mesmo a um summo pontífice; mas descoberta a feiticeira foi esfolada viva e, depois de morta, cortada em pedaços para pasto de cãesí Pelo processo das picadas o martyrio é sempre longo; mas se as bruxas quizerem acabar de vez com o paciente basta a mais velha desenrolar um novello e a outra cortar o fio, ou ainda mais summario, atirar o bonequinho para a caldeira de Pêro Botelho. Ultimamente o coronel Rochas d'Aiglun, na Escola Polytéchnica de Paris, por uma serie de experiências de hypnotismo, Pag. 625. 2 De praxi Medica.