divendres, 25 d’abril de 2014

A REVOLUÇÃO MONARCHICA - TRAVESSA DO FALA SÓ Nº24 EDIÇÃO DE AUTHOR ALFREDO PIMENTA - DIZIA HOMEM CHRISTO QUE DADA A IGNORÂNCIA E O DESMAZELO RELAXADO QUE FOI O QUE A MONARCHIA LEGOU ÀS CLASSES MÉDIAS, A REPUBLICA COMO FORMA DE GOVERNO HA-DE REPRODUZIR TODOS, ABSOLUTAMENTE TODOS OS FRACASSOS DA MONARCHIA ...NA ESSENCIA O PAIZ FICARÁ O MESMO . QUE DIGO EU? FICARÁ PEOR E DIGAM-ME SE A CONTINUAR NO EXERCITO ESTE ESPIRITO ANARCHICO ELLE NÃO É UM PERIGO PARA A INTEGRIDADE DESTA REPÚBLICA EM 1919 COMO O FOI PARA A DE CÉSAR NO ANO DE 44 ANTES DO OUTRO CHRISTO.....

Pensamos que chegou o momento de podermos emittir a nossa opinião
 sobre os acontecimentos politicos de janeiro passado. 

Mantivemo-nos, até agora, Num silencio absoluto, 
não só para não perturbar as digestoens 
republicanas^ mas também para que as situa- 
çoens mais claramente se definissem. Vários mo- 
mentos houve em que tivemos desejo de appare- 
cer em publico. Mas a imprensa monarchica 
estava suffocada^ e a outra, mesmo a que não 
é jacobina., é essencialmente medrosa. Nem 
mesmo pudemos sacudir uma aleivosia torpe 
que num papel grotesco, um bobo decrépito e 
grosseiro, a nosso respeito insinuou^ um dia que 
quiz erguer a voz no Becco equivoco onde vege- 
tam os da vida airada . . . 

Agora que as situaçoens se definem, entende- 
mos que não devemos por mais tempo occultar o 



nosso pensamento^ tanto mais que a desorienta- 
ção dos espiritos monarchicos me está dando a 
impressão de catastrophe. 

Ha que unir fileiras á volta do Rei, os olhos 
postos no superior e eterno Interesse Nacional^ 
na pessoa do Rei symbolisado, esquecidos os 
pequeninos e contingentes incidentes de ordem 
pessoal. 

2, Outubro, 1914, 

A. P. 



26, Fevereiro 

A questão política continua em equação, á es- 
pera de uma resolução positiva, normal e definida. 
O Equívoco nacional, aggraVado com o advento do 
regime republicano, mantem-se. A crise nacional 
que o liberalismo anarchico de um constitucionalis- 
mo de importação creou, attingio uma phase aguda 
e doentia. O problema da Ordem, supremo proble- 
ma do paiz, não encontrou forças que o resolves- 
sem, nem homens que pudessem dar-lhe o equilí- 
brio conveniente. 

A situação republicana gerada pelos intuitos e 
pela vontade de Sidónio Pais, fracassou e morreo 
estrangulada ás mãos da demagogia organizada. A 
dissolvencia dos caracteres accentuou-se. A impo- 
tência das intelligencias attingio a sua máxima evi- 
dencia. Não ha Governo. Não ha Lei. 



E no entretanto, um momento houve em que seria 
fácil conduzir o Paiz àquella estabilidade, àquella 
concórdia, àquella calma que são as condiçoens es- 
senciais da sua Vida normal. 

Uma vez assassinado o Presidente Sidónio Pais, 
o caminho lógico, intelligente, seguro, era só um : 
o da restauração das instituiçoens tradicionais por- 
tuguezas, em moldes diversos dos que ellas tinham 
em 5 de outubro de 1910. Bastava, para se conse- 
guir pacificamente esse desideratam, que os ele- 
mentos sidonistas, convencidos da fatalidade dos 
factos, e da fragilidade das chimeras românticas, 
tivessem, nessa occasião, dado força ás forças mo- 
nárchicas, e, repetindo, para a Monarchia, o que 
nós fizermos, durante a Vida do Presidente morto, 
para a República, collaborando com ellas na elimi- 
nação do regime republicano incontroversamente 
incompatível com as conveniências nacionais. 

Não quizeram. O resultado desse erro está ahi 
patente aos olhos de todos, para que seja preciso 
estarmos nós a forçal-o e a accentual-o. Nunca 
fomos revolucionários, porque sempre nos repugna- 
ram as allianças, os disfarces, as habilidades a que 
é preciso recorrer para se effectuar uma revolução. 

Um movimento militar, ordenado, disciplinado, 
orientado de cima para baixo, foi sempre o nosso 
processo. É talvez demorado ; mas é, sem dúvida, 
certo. Quiz ganhar-se em tempo o que se perdeo 
em viabilidade. D'ahi, o desastre. 

Mas a causa monarchica, sendo uma causa ven- 



cida, não é uma causa perdida. Só são perdidas as 
causas restrictameníe partidárias. E a causa mo- 
narchica é profundamente uma causa nacional. 



No domingo, 19 de janeiro, á 1 hora da tarde, 
estávamos nós no Largo das Duas Egrejas com 
um dos mais combativos e decididos jornalistas da 
Monarchia, combinando a nossa acção parlamentar 
do dia seguinte, quando o governo Tamagnini Bar- 
boza se apresentasse, como esperávamos, ás Câ- 
maras, a relatar os acontecimentos sediciosos de 
Santarém. As nossas palavras e os nossos projec- 
tos não eram de quem^presumia que meia hora de- 
pois, no Porto, se restaurasse a Monarchia. Troca- 
mos as nossas impressoens sobre a atitude que a 
minoria monarchica devia assumir, na hypothese do 
governo Tamagnini Barboza se inclinar para favo- 
recer as pretensoens das esquerdas, e partimos, cada 
um de nós, ao seo destino. Fui dar umas Voltas. E 
ao chegara casa, contaram-me que uma senhora das 
minhas relaçoens me avisara, informada por um po- 
lítico democrático, de que no Porto estava procla- 
mada a Monarchia. Não acreditei. Attribui tudo a 
boatos maléficos, destinados a desorientar a opinião 
conservadora, a agitar e irritar a opinião republi- 
cana extremista e jacobina. E á noite, sahi, muito 
tranquilamente, muito socegadamente, e fui a um 
animatógrapho vêr uma tragedia desempenhada pela 



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Pina Menichellie. A's onze e meia, deixei a casa de 
espectáculos e fui, ao Rocio, tomar carro para casa. 

Não sendo bohemio, nem noctámbulo, não conhe- 
ço muito bem a phisionomia do Rocio, àquellas ho- 
ras da noite, mas achei-ihe um ar extranho, agita- 
do, nas poucas pessoas que por alli andavam. En- 
contrei o então governador civil substituto de Lisboa, 
e dirigi-me a elle a perguntar-lhe se havia novidade, 
tanto mais que por mim passava, apressada e preo- 
cupada, uma força de polícia. Esse funcionário dis- 
se-me ao ouvido : «Vá para casa, metta-se em casa, 
que proclamaram, hoje, a Monarchia, no Porto ! » 

Eu não comprehendia. Elle insistio : «Vá para ca- 
sa .. . Vá para casa ...» 

Ao chegar a casa, o telephone não cessava de me 
chamar. De todos os lados me perguntavam o que 
havia. E eu só sabia dizer o que me tinha sido dito. 

No dia seguinte, os jornais davam notícia da pri- 
são do Sr. António Cabral, meo coUega na Câmara, 
e annunciavam novas prisoens. Para evitar qual- 
quer violência estúpida que demais a mais podia im- 
pedir que eu prestasse os serviços que de mim fos- 
sem exigidos por quem da direito, sahí de casa, e 
recolhi-me a casa amiga. Ninguém, da parte de quem 
podia fazel-o, me procurou. E eu estive quieto á es- 
pera dos acontecimentos. 

Na quinta-feira, de manhã, entravam, alvoroçada- 
mente, na casa onde me encontrava, mensageiros 
domésticos a dar-me a nova de que na Serra de Mon- 
santo estava desfraldada a bandeira azul e branca, 



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com forças militares e elementos civis. Dizia-se que 
acompanhava essas forças o Sr. Conselheiro Ay- 
res de Orneilas, meo director no Diário Nacional, 
leader do meo partido, e meo amigo. Pensei em sahir 
de casa, e ir para Monsanto. Mas não sabendo ao 
certo quem lá estava, não tendo sido avisado de nada, 
de nada servindo a minha pessoa num reducto guer- 
reiro, onde só poderia embaraçar, deixei-me ficar. 
Como nunca qualquer espécie de ambição poh'tica 
me determinou, em nada seria prejudicado pelo facto 
de não poder dizer que estivera em Monsanto. Cus- 
taVa-me apenas não estar ao lado de Ayres de Or- 
nella, correndo, ao seo lado, os riscos do que eu con- 
siderava aventura perigosa, um sacrifício nobre sem 
dúvida alguma, mas, em face do ponto a que as 
coisas tinham chegado em Lisboa, destinado a in- 
sucesso immediato. 

Mas se não me chamaram, se não me avisaram, 
para que havia eu de apparecer onde não me tinham 
chamado, e para que não me tinham avisado? 

Fiquei, pois, a assistir ao desenrolar dessa trage- 
dia, chorando lágrimas de desespero e amargura, ás 
escondidas, para que não m'as vissem, gelado de an- 
ciedade, ora acalentando, durante segundos, as maio- 
res esperanças, ora cahindo, durante horas, no mais 
desconsolado desespero. Que amigos meos lá esta- 
riam em cima, sofírendo e morrendo, sob a chuva 
de balas, sob um sol glorioso, recebendo no peito a 
metralha furioza que de todos os lados lhes era en- 
viada pelas forças republicanas? Que amigos meos, 



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longe de mim, estariam dando a Vida por um ideal 
commum, para cuja realização eu trabalhara annos 
incansáveis, com o melhor da minha intelligência e 
da minha vontade e da minha fé ? Que amigos meos 
estariam lá em cima, à luz de um sol claro de inverno 
primaveril, dando o seo sangue generoso e forte pela 
libertação da Pátria, na agitação da lucta, no fragor 
do combate — emquanto eu, espírito combativo e 
ardente, me via inerte, inactivo, preso e inútil ? 

Só eu sei as horas amargas desses dois dias trá- 
gicos, contadas segundo a segundo— a segundos que 
pareciam séculos infindáveis ! 

Á noite, a imprensa republicana Vinha cheia de 
calúmnias miseráveis, de injúrias indignas, de insul- 
tos infamantes, contra esses bravos luctadores, mui- 
tos delles amigos meos, homens de brio e honra . . . 

Depois, a derrota, o assalto, o sol morrendo, a 
noite cahindo, e a minha alma que se envolvia na 
amargura mais cruel e mais esmagadora . . . 

E a mim próprio eu me queixava, porque não me 
tinham avisado, porque não me tinham dito, para que 
eu pudesse, junto d'elles, desses que soffriam, sof- 
frer também. 

Sim ! Porque eu que não sou capaz de descobrir 
as razoens estratégicas e políticas que levaram as 
forças militares monarchicas a escolher para ponto 
de concentração o forte de Monsanto ; eu que se 
tfvesse sido consultado, outra orientação, bem di- 
versa, bem opposta, teria dado a esse gesto da au- 
dácia ; eu que teria discordado do momento e do 



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lugar, — eu, se meia hora antes de se partir para 
Monsanto, tivesse sido avisado, teria ido também, 
não para vencer, não para combater, porque não sei, 
mas para soffrer com os meos companheiros, e prin- 
cipalmente, junto do representante do Rei, correr os 
riscos certos da jornada estéril. 

No dia seguinte, os meos olhos vermelhos das lá- 
grimas iam lendo os nomes dos amigos que, segundo 
os jornais de então, o Destino quiz que fossem ven- 
cidos em Monsanto, e presos pelas forças republica- 
nas : Ayres de Ornellas, figura de nobreza moral 
como raras ; Azevedo Coutinho, bravo e audaz ; 
Solano de Almeida, enérgico e decidido ; José de 
Sucena, ainda hontem sabido de um Sanatório, já 
hoje misturado na pêle-mêle de um combate, corajo- 
so e cheio de fé ; António Hintze, cuja grave melan- 
cholia não quebra a firmeza ; Reis Torgal, Alberto 
Monsaraz — almas carinhosas recebendo os sacrifí- 
cios com sorrisos ; João Moreira de Almeida, cheio 
de ingenuidade e perseverança ; Simoens Cantante, 
dedicado como poucos ; Pequito Rebello, audaz até 
a loucura ; Conde d'Arrochella, Costa Pinto, Gus- 
tavo Ferreira Borges, Eugênio de Araújo, — almas 
em quem nunca encontrei um desfallecimento, a som- 
bra de uma hesitação, promptos sempre aos maio- 
res riscos. 

E quantos outros, quantos outros que a minha pena 
não descreve — porque todos elles cabem dentro de 
duas palavras : nobreza e corajem ! E a estes ho- 
mens, uns ricos e bem nascidos, bem amados da 



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Vida e da fortuna, outros Vivendo do labor diário 
do seo braço, sacrificando, aqueles, os prazeres da 
vida, sacrificando, estes, o seo pão e o seo lar, foi 
a estes homens que a imprensa republicana de Lis- 
boa, na hora em que cahiram vencidos, injuriou, 
ultrajou, insultou e aggravou ! 

Quanto pode a cobardia dos miseráveis ! 

Perguntei, então, a quem podia perguntar : é pre- 
ciso defender os Vencidos das calúmnias de adver- 
sários sem nobreza : o que hei de fazer ? 

Responderam-me : nada ! 

Effecti Vãmente, o que havia eu de fazer? 

Sentir, callado, as injúrias, como se ellas me attin- 
gissem, e aguardar o momento propício para as le- 
vantar, defendendo de tudo quanto lhes assacaram, 
os que jogaram a vida nesses dias angustiosos de 
Monsanto. 

A revolução monarchica- . . 

Elia tem duas phases distinctas : o movimento 
inicial do Porto, e o movimento solidário de Lisboa. 
Pelas palavras que atraz ficam escriptas, Vê-se que 
não temos a mais ligeira sombra de responsabilida- 
de directa no movimento do Norte. 

IgnoraVamo lo por completo. Sempre, desde o 
início da nossa vida política, tivemos por norma in- 
flexível não nos intromettermos onde não nos cha- 
massem, quaisquer que fossem as circunstâncias. 
Sabem-no muito bem os republicanos que me co- 
nhecem ; não o descohecem, os monarchicos. Para 
que o nosso nome fosse proposto ao suffragio elei- 



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toral, nunca demos um passo, nunca fizemos uma 
insinuação. Todos sabiam que não faltaríamos á 
chamada, quando nos quizessem utilizar : e nunca 
faltamos. Mas todos viam também que nos não 
inmiscuiríamos onde a nossa presença não fosse 
julgada precisa. 

Ainda hoje não sabemos quem são os responsá- 
veis directos, os dirigentes effectivos, reais, do mo- 
vimento do Norte. Elle foi feito sem que fossemos 
consultado, e estamos absolutamente convencido 
de que elle se planeou e executou sem que fosse 
ouvido o supremo representante do Rei, que certa- 
mente não procederia, em acontecimento de tal mag- 
nitude, sem ouvir, primeiro, que mais não fosse a 
título consultivo, os seos collegas parlamentares e 
jornalísticos. Responsabilidades morais mesmo, em 
boa justiça as não temos, nós que nunca fomos re- 
volucionários, e que, quanto ao processus de tor- 
nar effecíiVa e realizada a causa monarchica, temos 
as nossas opinioens de que não abdicamos ainda. 

Trabalhamos, sim, e com fé, com tenacidade, e 
empregando o melhor do nosso saber, — para que 
se criasse uma opinião pública monarchica, orien- 
tada, disciplinada, convergente ; trabalhamos, sim, 
para que todos os elementos monarchicos se con- 
jugasem, se unissem e se animassem ; trabalhamos, 
sim, para que fosse possível restabelecer-se um 
ambiente favorável á restauração das instituiçoens 
tradicionais; trabalhamos, sim, para que os senti" 
mentos orgânicos da nação se robustecessem e fos- 



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sem estimulados ; trabalhamos, sim, para que o sen- 
timento monarchico fosse uma realidade e não uma 
abstracção. Mas todo esse trabalho foi feito ás cla- 
ras, na imprensa e na conferência, visando as in- 
lelligências e as Vontades, preocupando-nos mais a 
creação do sentimento monarchico, do que a des- 
truição ou o desprestígio das instituiçoens republi- 
canas. E seria injustiça de que não somos capaz, 
deixar de affirmar que a orientação do nosso tra- 
balho era carinhosamente acolhida e favorecida pelo 
representante de S. M. El-Rei. 

E não podia ser outra a minha attitude. Eu Viera, 
ha perto, de quatro annos, para a Monarchia, tra- 
zendo licçoens de experiência e conclusoens de phi- 
losophia política, obtidas à custa de muita medita- 
ção, de muito estudo e de muito sacrifício. Eu não 
Viera para a Monarchia, por um simples prurido de 
ser monarchico. Eu Viera para a Monarchia, con- 
vencido da Verdade monarchica pela acção da Sciên- 
cia política e pelos ensinamentos dos factos, — co- 
mo sufficientemente demonstrei no trabalho publi- 
cado em que fiz a minha profissão de fé. 

Eu sou um espírito positivo^ e não um espírito 
negativo ; eu sou um conservador^ e não um revo- 
lucionário. Repugnam-me todos os actos de indis- 
ciplina ; quer dizer : repugnam-me todas as revolu- 
çoens. Posso soffrel-as : não as fomento. 

Por maioria de motivos, revoluçoens dispersivas, 
desorganizadas, incertas, condemno-as em absoluto. 

Isto não significa que eu abandone, no momen- 



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to crítico, os meos companheiros, e me tivesse afas- 
tado, em 19 ou em 25 de janeiro, se a vontade dei- 
les me tivesse vencido, e tivessem decidido ir por 
caminho que eu teria, ceríamente, reprovado. 

Avisado, prevenido, seguii-os-hia, tanto me sinto 
mais destinado ao sacrifício de que a recolher os 
fructos da victoria. 

Sinto, evidentemente, um infinito desgoslo, por- 
que vejo vencida a causa monarchica. Energias 
perdidas, vontades enfraquecidas, utilidades disper- 
sas, consciências alarmadas, espíritos desorientados 
— eis o balanço final e syníético do movimento; 
mas esse desgosto é agravado, se é possível agra- 
var-se um desgosto sem limites, com a constatação 
do que se tentava fazer da Monarchia, pelo que, 
nos poucos dias que ella viveo no Norte, se fez. 

Pois quê ? ! Pianea-se um movimento revolucio- 
nário de possível grande repercusão, que muito pos- 
sivelmente podia degenerar numa guerra civil feroz 
e perigosa — para se restaurar a Carta Constitu- 
cional ? Era para voltarmos aos moldes anárchicos 
de antes de 5 de outubro que tornaram possível 
essa data, que se trabalhava, que todos nós traba- 
lhávamos ? Era para restabelecer o liberalismo 
constitucional, com as suas supersíiçoens dispersi- 
vas, com as suas chimeras negativas, com as suas 
ficçoen-s democráticas, — que nós andávamos a 
luctar ? Era para restaurar uma Monarchia dege- 
nerada e falsa, que nós andávamos no bom com- 
bate ? Era para substituir um Rei sem coroa por 

2 



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um Presidente coroado, que nós andávamos na 
brecha pregando doutrinas sãs, estabelecendo prin- 
cípios úteis ? Era para voltarmos à nefasta políti- 
ca do Rei que reina mas não governa, do Rei- 
chancella, do Rei-abulico, do Rei-irresponsável, 
do Rei-phantasma, que nós todos nos andávamos a 
sacrificar dia a dia? Era para Voltarmos ao regime 
das clientellas, das camarilhas, dos grupelhos, das 
burlas eleitoraes, das conspiraçoens palacianas, das 
pressoens sobre o Rei, das chantages de corredo- 
res parlamentares, da farçada democrático-consti- 
tucional, que nós todos andávamos a alimentar es- 
peranças em melhores dias? Era para Voltarmos 
à Monarchia sem monárchicos que sepultou D. Car« 
los e atirou para o exílio com o Sr. D. Manoel, que 
nós combatíamos? 

Pois quê?! Ainda se estava nessa illuzão, nessa 
dissolvente cegueira,— a ponto de, logo, com pressa, 
com receio de que não houvesse tempo, se restau- 
rar a Carta Constitucional, fonte primária de Re- 
pública? 

Oitenta annos de realidade constitucionalista se- 
guidos de oito annos de experiência republicana, 
não bastavam para convencer a mentalidade portu- 
gueza, de que a Nação tem de procurar em mol- 
des differentes dos da Carta Constitucional, a sua 
organização política? Esse longo calvário de so- 
phismas não foi o bastante para nos desilludir, e 
dar ao nosso espírito um rumo diverso? Ainda há 
uem não esteja convencido de que o regime re- 



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publicano é filho directo do liberalismo constitucio- 
nalista? 

Pois quê ? ! HaViamos de voltar ao regime das 
facçoens e das intrigas, em que o Rei era cabeça 
de turco entre as ambiçoens dos políticos? HaVia- 
mos de regressar àquela atmosphera mephítica que 
nos envenenou, que nos subverteu, que nos anarchi- 
sou, que nos trouxe ao estado deplorável em que 
nos encontramos hoje? Desconhecemos porventu- 
ra que o hoje de hoje é filho de hontem ? HaVia- 
mos de continuar na situação estructuralmente re- 
volucionária que 1820 iniciou, e que 1910 consa- 
grou ? 

• Não ignoramos que as condiçoens actuais da po- 
lítica mundial exigem um regime político baseado 
numa constituição. Simplesmente essa constituição 
não poderia de maneira alguma ser a Carta Cons- 
titucional, — a não ser que quizessemos voltar ao 
Erro, regressar ao Mal, repetir a Aventura crimi- 
nosa. 

Noutra occasião, pudemos nós dizer o que pen- 
sávamos sobre quais deviam ser as bases do Esta- 
tuto fundamental da Monarchia (*)• Quem conheça 
esse nosso trabalho facilmente comprehende que 
não podíamos de maneira alguma sancionar uma 
revolução que tivesse por fim restaurar a Carta 
Constitucional. Para isso, não daríamos o nosso 
mais ligeiro voto. Para isso, não daríamos o nosso 

(i) Politica Monarchíca, 1.» vol., Lisboa, 1917. 

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